O que pensam os índios
14 julho, 2008 - 19:19h Délcio Rocha
O artigo foi publicado originalmente no Jornal Pessoal, escrito, editado e
distribuído nas bancas de Belém há mais de 15 anos pelo próprio Lúcio
Flávio. Nascido em Santarém, no Pará, e jornalista atuante desde 1966, já
recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais por seu trabalho no
combate aos problemas da região, o que lhe rendeu também vários inimigos
dentre os poderosos destas bandas, entre eles destacados membros da família
Maiorana, que edita "O Liberal", o maior jornal de Belém.
No texto, Lúcio Flávio considera que o gesto da índia Tuíra de esfregar seu
facão no rosto de Muniz Lopes, o representante da Eletronorte, no primeiro
encontro de Altamira em 1989, para demonstrar a rejeição dos Kayapó à
construção de hidrelétricas no Xingu abalou o projeto a tal ponto que causou
seu adiamento por pelo menos vinte anos. O jornalista se pergunta se a nova
investida dos índios prejudicará a continuidade do projeto ou se, ao
contrário, ajudará o governo a finalmente colocá-lo em prática. E observa
que o incremento da agressividade, do susto de Muniz Lopes em 1989 ao corte
no braço de Paulo Rezende no mês passado, indicaria que "agora a paciência
dos índios do Xingu se esgotou e eles simplesmente não querem mais usina
alguma no rio", estando dispostos a "morrer, se preciso for, até o último
deles, mas não permitir a execução da obra". Entretanto, segundo ele, "os
índios, na avaliação interna que fizeram, no dia seguinte ao incidente,
ainda em Altamira, admitiram que se excederam e cometeram um erro grave".
"Pareciam conscientes que, a partir de agora, terão que recuperar o apoio da
opinião pública, que condenou seu ato, para poderem sustentar o veto à
hidrelétrica".
Lúcio Flávio citou ainda a manifestação do cacique Bepe Kamró (Jair) Kayapó,
da aldeia Topkrô, que desaprovou a agressão dos guerreiros e colocou-se a
favor da usina, como evidência de que começaram a surgir fissuras "num
movimento (dos índios contra as hidrelétricas do Xingu) até então
aparentemente monolítico".
Confesso que, como ativista contrário à construção das hidrelétricas, fiquei
preocupado quanto às possíveis "fissuras". Minha confusão só aumentou
quando, mais ou menos por estes dias, encontrei-me com um Kayapó amigo meu
(Karuru é seu nome), da aldeia Aukre, que veio a Belém acompanhar a esposa
dele em um tratamento de saúde. Quando lhe perguntei sobre a reação dos
índios ao ocorrido em Altamira, disse-me que os Kayapó "já vão autorizar a
obra". "Liberar". "Se o governo quiser, já pode fazer".
"Como assim?", perguntei-lhe, intrigado pelo contraste destas declarações
com tudo o que vi e ouvi sobre a demonstração, ao que ele me respondeu: "já
pagou". Ou seja, que todo o estrago da construção da usina no Xingu já
estava pago com o corte no braço do engenheiro da Eletrobrás! Isso já quase
rindo comigo do absurdo da situação. Não sei exatamente a opinião dele sobre
as hidrelétricas, mas os Kayapó têm o habito saudável de se divertir com as
bobagens do próprio povo.
Os índios evidentemente estão preocupados com a preservação do seu modo de
vida. Mas não são ecologistas da forma como nós entendemos o termo e também
estão, como nós, interessados nas facilidades da vida moderna e nas novas
possibilidades que chegam com o dinheiro. A Eletrobrás e as empreiteiras
sabem disso e vão explorar estas contradições ao máximo. Concordo com Lúcio
Flávio que a aproximação da empresa se dará através de obras nas aldeias, da
implantação de alguns projetos de "desenvolvimento social" e,
principalmente, de dinheiro vivo. Dinheiro este, é bom que se destaque,
muitas vezes distribuído na forma de suborno para a cooptação de lideranças.
O jornalista lembrou, por exemplo, o caso da Vale do Rio Doce que, segundo
ele, "atraiu para si os índios Xikrin do Cateté, vizinhos das minas de
Carajás e primos dos Kayapó", atração esta obtida "através de aplicações
significativas em obras e em dinheiro vivo, além de muitas relações
públicas". Para ele, com a "retração dos Kayapó depois da agressão ao
engenheiro, o campo está mais favorável a esse tipo de empreitada".
É bom que se diga, no entanto, que os Xikrin do Cateté não foram exatamente
"atraídos para si" pela Vale, apesar dos altos salários pagos para índios em
troca de nenhum trabalho, que muito mais criaram do que resolveram problemas
sociais. Dizem que, até recentemente, pagavam R$ 500 todos os meses para
cada pessoa com mais de dezesseis anos. Tem índio que deixou de fazer roça
para gastar o dinheiro com bebida e prostituição nas cidades. Tanto não
foram "atraídos para a Vale", que volta e meia ocupam e obstruem as
instalações da empresa. Sei ainda do caso de uma mineradora atuante na
região, que, precisando do aceite dos índios para a continuidade dos seus
trabalhos, organizou um grande churrasco. Antes da festa, os índios deveriam
assinar uma "lista" para poder então comer. A lista, não sabiam, já era o
documento de aceite.
Apesar dos anos de convivência, os índios freqüentemente conseguem me
surpreender. Porque às vezes imagino que eles são uma coisa, para concluir
que são justamente o contrário e em seguida mudar novamente de opinião. Um
exemplo: os Kayapó jovens freqüentemente falam bem o português, gostam de
roupas de marca, usam óculos escuros e escutam música em fones de ouvido.
Uma vez, na aldeia, entrei numa casa onde havia um jovem com esta descrição
deitado na rede e reparei que havia um sapo no canto da casa.
Perguntado sobre a razão daquele animal estar ali, ele rapidamente
desconversou: "Deixa, é parente do meu pai". Quer dizer, diferentemente do
pai, o rapaz era moderno demais para se dizer parente do sapo, mas não
chegou a dizer algo tão "separatista" como "deixa, meu pai acha que é
parente dele".
Voltando às opiniões dissonantes quanto à construção das hidrelétricas, uma
coisa é certa: há muito percebi que os Kayapó divergem sobre tudo, seja dos
brancos ou entre eles mesmos. Para cada idéia que um grupo tenha, há sempre
o grupo contrário. E os debates são intermináveis, até que se perca o
interesse, ou que uma liderança (se tiver força para tanto) tome uma decisão
final. Com a questão da hidrelétrica, não poderia ser diferente. Certamente
haverá sempre o grupo a favor e o grupo contra. Se o movimento dos índios
contra a barragem de Belo Monte parecia monolítico, não é que ele tenha
começado a se fissurar em decorrência do ataque, como Lucio Flávio
interpretou, mas sim que carecia ser observado mais de perto.
De todo modo, sempre haverá os índios "conservacionistas", sinceramente
preocupados com a natureza. É com eles que a luta pelo rio Xingu vivo
continua.
Por: Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia,
é pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Fonte: Correio da Cidadania
- Categoria: ECOLOGIA, ARTIGOS, CIÊNCIA E TECNOLOGIA, Índigenas, Artigos Técnicos
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