Cientistas criam molécula mista de matéria e antimatéria
15 setembro, 2007 - 07:59h Délcio Rocha
Cientistas da Universidade da Califórnia anunciam, na edição desta semana da revistas Nature, a criação de moléculas formadas por dois átomos de positrônio (Ps) - elemento que surge da união entre um elétron e sua contrapartida de antimatéria, o pósitron.
Como matéria e antimatéria se destroem ao contato, convertendo-se em radiação, o positrônio desaparece após existir por, no máximo, 142 bilionésimos de segundo.
Outra característica bizarra do material é que, como pósitron e elétron têm a mesma massa, o átomo de positrônio não tem núcleo definido. Segundo um dos criadores da nova molécula, David Cassidy, da Universidade da Califórnia, a situação poderia ser descrita como "uma bola de neblina quântica".
Para criar as moléculas, Cassidy e seu colega A.P. Mills arremessaram cerca de 20 milhões de pósitrons, gerados pela desintegração radioativa de átomos de sódio 22, de encontro a uma placa porosa de sílica. Antes que pósitrons e elétrons pudessem se anular mutuamente, cerca de 10.000 moléculas de Ps2 se formaram nos espaços vazios da placa.
Essas moléculas foram detectadas com a análise da radiação produzida pela desintegração entre pósitrons e elétrons: o Ps2 é formado pelos átomos de pósitron de maior longevidade - que, afinal, duram o bastante para dar origem a moléculas - e produz uma assinatura radioativa peculiar.
Segundo Cassidy, o Ps2 é muito semelhante, quimicamente, ao hidrogênio, H2. A principal diferença, segundo ele, é a baixa expectativa de vida da molécula mista de matéria e antimatéria. "Por conta disso, não é muito útil para a química em geral. Mas já existem alguns trabalhos na área" de química com outras formas de antimatéria, ressalta.
Na ficção científica, combinações de matéria e antimatéria geralmente aparecem como armas avançadas ou fontes futuristas de energia. O próximo passo proposto por Cassidy na pesquisa com moléculas de positrônio - uso na criação de lasers de raios gama de alta intensidade - pode representar um passo inicial nesses dois sentidos.
Se as moléculas de Ps2 puderem ser resfriadas a uma temperatura de cerca de 250º C negativos antes de se autodestruírem, diz o pesquisador, o resultado será um material capaz de dar origem a um feixe coerente de radiação: um laser.
"Se tivermos muitas partículas, muito mais partículas do que poderemos produzir por agora, poderá haver uma potência significativa nisso e então, em princípio, sim, (o laser) poderia ser usado como arma", diz Cassidy, respondendo a uma questão sobre o assunto. "Ele também seria um bom método para iniciar uma reação de fusão nuclear para gerar energia".
O cientista lembra, porém, que usar antimatéria como fonte de energia é difícil, porque cada partícula tem de ser produzida artificialmente, a um custo energético alto. "Qualquer energia que se tire da antimatéria custará várias vezes essa mesma energia, gasta na produção da antimatéria".
Ele especula, no entanto, que formas mais estáveis de antimatéria - não o positrônio, que se desintegra em frações de segundo - poderiam servir como reserva energética para viagens espaciais.
Fonte: Estadão Online
- Categoria: NOTÍCIAS, CIÊNCIA E TECNOLOGIA, INTERNACIONAL
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