RS encerra colheita da supersafra de soja
8 junho, 2007 - 07:52h Délcio Rocha
Conab estima produção de 9.850.300 de toneladas. Quando a colheitadeira arrancou do solo o derradeiro pé de soja de uma área entre Bom Jesus e Vacaria do produtor Ângelo Pegoraro, às 14h55min de ontem, encerrou, ao menos simbolicamente, a maior safra gaúcha do grão na história. A lavoura foi uma das últimas, se não a última, a ser colhida na região onde a safra tradicionalmente termina mais tarde, encerrando assim, um ciclo aberto pelo agricultor Pedro Plínio Vieira Marques de São Luiz Gonzaga
Se as estatísticas fossem precisas, poderia se dizer que saíram das lavouras de Pegoraro as cargas que completaram as 9.850.300 de toneladas estimadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) como a produção de oleaginosa total gaúcha. Uma safra para estufar o peito de qualquer produtor, e comemorar como desde os primórdios da agricultura.
- Neste ano, me convidaram para uma festa para festejar e agradecer o resultado da colheita. Fazia muitos anos que eu não via isso! - conta o agrônomo da Emater Alencar Ruggeri.
A colheita nos 2 mil hectares de soja plantados por Pegoraro começou no início de abril. Era para terminar na segunda quinzena de maio, mas a chuva castigou a região no mês passado - e com chuva não se colhe (o grão fica úmido e perde qualidade). Neste ano, portanto, a safra atrasou ainda mais nos Campos de Cima da Serra, onde a colheita sempre é tardia - a altitude e a temperatura baixa fazem com que as variedades tenham ciclos mais longos do que em outros locais, explica o agrônomo Carlos Pucci.
Os trabalhos nos 140 hectares de Pegoraro que restavam plantados começaram na terça-feira pela manhã. Os nove peões encarregados de operar as quatro máquinas e auxiliar no carregamento dos caminhões acordam cedo, às 7h. Fazem um desjejum reforçado - café, leite, pão caseiro, margarina e geléia de figo - e se tocam para o campo. Revisam, engraxam, abastecem, apertam e desapertam parafusos das máquinas - elas têm de estar reguladas para retirar do solo o grão que, em todo Estado, injetará mais de R$ 4,4 bilhões no bolso dos agricultores gaúchos (embora boa parte desse dinheiro tenha de sair direto da guaiaca para quitar dívidas).
A dança das colheitadeiras começa às 10h. Juntos, os operadores lançam-nas num balé frenético pela lavoura. A 6 km/h, o que parece muito rápido dado o tamanho de cada máquina, cruzam-se coxilha acima, coxilha abaixo, deixando um rastro denso de poeira para trás, em busca de cada metro quadrado plantado.
Quando estão exauridas, os reservatórios quase transbordando de tanto grão, as máquinas acusam acendendo automaticamente um giroflex. É o sinal para que o caminhoneiro aproxime seu veículo, na caçamba do qual a colheitadeira vomita todo o grão colhido e debulhado da vagem. O baile das máquinas, e o ciclo colhe-despeja seguem quase incessantemente (há uma pequena pausa para o almoço) até às 19h, já noite escura, a festa iluminada pelos faróis.
Assim como, segundo o ditado, "o olho do dono engorda o boi", o olho do dono também enche o grão. Pegoraro é presidente da Cooperativa Tritícola Mista Vacariense, para onde também envia sua soja, tem seus afazeres de executivo, mas todo dia vai à lavoura. Chega em sua caminhonete cabine dupla preocupado com os detalhes que o caminho o faz lembrar - o milho quase passando do ponto de colher, os grãos de soja que transbordaram de um caminhão, a tal da colheitadeira que atolou.
A tal da colheitadeira que atolou atrasou por umas horas o fim da colheita de Pegoraro. Quarta-feira, a máquina parou em um banhado. Mais de dez toneladas afundadas no barro e uma discussão interminável sobre como resgatar o gigante - cava ao redor do pneu, puxa com um trator, com dois, pela frente, por trás -, até que uma das tentativas é bem-sucedida. O equipamento ainda participa dos últimos momentos da colheita.
Apesar dos pequenos contratempos, as lavouras de Pegoraro apresentaram um rendimento de 2.760 quilos por hectare - um pouco acima da média estadual de 2.530. O clima ajudou, foi quase perfeito. A safra é cheia, ajudará a compensar o câmbio desfavorável que afeta as cotações em reais da soja (hoje em torno de R$ 27, a saca de 60 quilos). O problema são as dívidas prorrogadas de anos anteriores, que nos bancos somam R$ 100 bilhões em todo o Brasil, sendo R$ 14 bilhões a vencer em 2007.
A situação de Pegoraro é ilustrativa do problema. O custeio das lavouras de verão - além de soja, milho e feijão - nos bancos (sem contar financiamentos da cooperativa) foi de R$ 594 mil, a pagar ainda em 2007. No entanto, ele tem R$ 732 mil de débitos de custeio de anos anteriores, prorrogados no passado por causa da seca (em 2004 e 2005) e dos baixos preços (em 2006), que vencem entre este ano e 2011. O governo federal já abriu o diálogo sobre nova renegociação, mas os agricultores também sonham com outra coisa para sair do buraco:
- Precisamos de mais umas duas ou três safras como esta para colocar as coisas em ordem - resume Pegoraro.
Fonte: Zero Hora
- Categoria: AGRONEGÓCIOS, NOTÍCIAS, AGRICULTURA, culturas
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