Educadores criticam prêmio por notas boas
7 junho, 2007 - 08:40h Délcio Rocha
Antes mesmo de sair do papel, o projeto do governo federal que cogita estabelecer pagamento a famílias de alunos que passarem de ano foi reprovado por especialistas na área de educação. A proposta, em estudo no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, deve beneficiar estudantes pobres de 5ª a 8ª série contemplados pelo programa Bolsa-Família. Eles receberiam no mínimo R$ 204 ao final do ano letivo (o valor ainda não está definido). Trata-se de uma tentativa de evitar a evasão, um dos pesadelos do sistema educacional brasileiro.
A secretária nacional de Renda e Cidadania do ministério, Rosani Cunha, defende a iniciativa como uma forma de estimular estudantes no início da vida escolar.
Apesar das boas intenções, a idéia foi criticada por especialistas de variadas tendências. A maior dúvida levantada por eles é como evitar que os professores sejam pressionados pelas famílias a passar os estudantes, já que a aprovação dos jovens nos estudos significa dinheiro no bolso - dos pais, que são os tutores dos filhos. O ex-ministro da Educação e ex-candidato a presidente da República, hoje senador Cristovam Buarque (PDT), não tem dúvidas de que o objetivo idealista do projeto acabará distorcido.
- Assim como o Bolsa-Família tirou o conteúdo educacional do Bolsa-Escola, este projeto vai trazer pressão aos professores para que passem de ano alunos despreparados - opina Buarque (confira íntegra da entrevista ao lado).
Tania Zagury, mestre em Educação e professora desta disciplina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que o governo erra ao estabelecer prêmios para os alunos assim como pais se equivocam ao recompensar crianças por estudar. Autora de livros como Limite sem Trauma, Direitos dos Pais e O Professor-Refém, a especialista carioca lembra que é dever governamental providenciar ensino a crianças e adolescentes, mas é dever destas - "enquanto pequenas cidadãs" - corresponder com assiduidade nas aulas e boas notas.
- Caso receba dinheiro para isso, a criança pode desenvolver uma visão utilitária e mercantilista da vida. Melhor faria o governo se investisse em salário dos professores e infra-estrutura de escolas que estão caindo aos pedaços - critica Tania.
Outros questionam quanto vai custar esse benefício e quem vai custeá-lo, já que o peso de programas assistencialistas recai sobre todos os contribuintes brasileiros.
- Eu me pergunto, de onde sai tanto dinheiro? - indaga Fernando Becker, doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Ele acha estranho que um planejador de educação tenha de premiar alunos para mantê-los na escola. O especialista até acredita que a idéia não é ruim, mas há muito mais a fazer no país antes disso. Uma delas, exemplifica Becker, é melhorar a capacidade de ensinar do professor, já que o docente "é o personagem número um" nas condições para que a criança possa se ligar à escola.
A psicopedagoga Jacinta Staudt da Silva, que atua em três instituições educacionais do Vale do Sinos, considera "preocupante" a iniciativa do governo federal e assinala que aprendizado não é uma transação comercial.
- Nós, educadores, vivemos lembrando que aprender não é garimpar notas. Aí vem o governo e acena com uma premiação em dinheiro. Deveria é melhorar a qualidade do ensino, propiciar que as aulas tenham relação com a vida prática do estudante, criar mais escolas técnicas - sugere Jacinta.
Por: Humberto Trezzi e Lúcia Pires
Fonte: Zero Hora
Email-s: humberto.trezzi@zerohora.com.br , lucia.pires@zerohora.com.br
- Categoria: NOTÍCIAS, POLÍTICA, QUE PAÍS É ESSE???, AMBIENTE URBANO
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