Arquivos para outubro, 2008
31 outubro, 2008 - 10:48h
A Royal Society (academia britânica de ciências) vai estudar uma série de propostas inusitadas para reduzir o impacto do aquecimento global sobre a Terra, incluindo a colocação de espelhos no espaço para desviar raios solares.
Vários projetos de "geo-engenharia" foram apresentados. Além dos espelhos, outros cientistas sugeriram estimular o crescimento de algas nos oceanos para absorver dióxido de carbono, ou borrifar "sprays marítimos" sobre as nuvens para que elas fiquem mais brancas e possam refletir os raios solares.
A Royal Society afirma que todas as propostas - não importa o quão mirabolantes - têm de ser propriamente analisadas.
Mas grupos ambientalistas alertam que as soluções tecnológicas não devem desviar a atenção do problema de reduzir a emissão dos gases que provocam o efeito estufa.
Projetos
Um grupo de engenheiros e cientistas que estudam o clima deve analisar os projetos e publicar um relatório em meados do ano que vem.
Entre as idéias também está semear partículas na atmosfera para atuar como um bloqueador solar planetário.
Segundo o professor Andrew Watson, da Universidade de East Anglia, que é membro do grupo, "algumas da idéias podem ter efeitos colaterais desagradáveis, algumas podem ser muito caras e outras podem não funcionar".
"Sentimos que há uma variedade de idéias como essas por aí, e um crescente interesse por elas", afirma Watson.
O professor diz acreditar que é hora de analisá-las com alguma autoridade para saber quais podem ser úteis e o que mais precisa ser feito. Watson acrescentou ainda que nenhuma das idéias é claramente maluca.
"O grupo de trabalho não vai desprezar nenhuma delas por parecerem fantásticas", afirmou. "Acredito que alguns desses esquemas tenham potencial para reduzir o dióxido de carbono na atmosfera, e alguns certamente têm potencial de esfriar o planeta."
Maior atenção
O objetivo do estudo é providenciar o primeiro passo útil para definir os parâmetros e limitações dessas idéias e oferecer recomendações sobre quais merecem maior atenção.
Em muitos casos, algumas das propostas podem ter efeitos danosos não intencionais ao meio ambiente.
Um dos objetivos do grupo é investigar esses potenciais efeitos colaterais e estabelecer que tipo de pesquisa deve ser encomendada.
Alguns ambientalistas dizem acreditar, no entanto, que só pensar em soluções tecnológicas a atenção é desviada da questão das emissões de gases poluentes.
Mas, segundo o professor Watson, há uma sensação na comunidade científica de que essas propostas devem ser estudadas, porque algumas podem ser úteis, no mínimo, como último recurso.
"Se as piores previsões sobre mudanças climáticas se concretizarem, o que acontece se, politicamente, não conseguirmos mudar nossos hábitos de emissões?", pergunta o pesquisador.
"Como último recurso, poderíamos usar um desses métodos possíveis", afirma Watson. "Se não tivermos feito a pesquisa e avaliado esses métodos de maneira apropriada, essa opção não vai estar na mesa."
Fonte: G1
31 outubro, 2008 - 10:45h
O governo gasta R$ 37 milhões por ano com tratamento de saúde e pensões pagas pela morte de vítimas de doenças provocada pelo tabagismo passivo. Esse cálculo foi feito pelo estudo "Impacto do Custo de Doenças relacionadas com o tabagismo passivo no Brasil", pesquisa econômica encomendada pelo Instituto Nacional do Câncer à Universidade Federal do Rio de Janeiro e divulgado na manhã desta quinta-feira, 30.
O estudo teve como base a estimativa entre "mortalidade atribuível ao tabagismo passivo no Brasil" que calculou que 2.655 não fumantes morrem todo o ano no país em conseqüência de doenças isquêmicas do coração, principalmente enfarte, acidente vascular cerebral e câncer de pulmão - as três principais doenças relacionadas ao fumo. Dos R$ 37 milhões, R$ 19,15 milhões referem-se aos gastos do SUS e R$ 18 milhões são pagos pelo INSS.
Por: Fabiana Cimieri
Fonte: O Estado de S. Paulo
31 outubro, 2008 - 10:43h
Todo mundo sabe indicar um chazinho perfeito para diferentes males, com dicas "infalíveis" transferidas pelos mais velhos da família. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), 80% da população utiliza remédios naturais ou faz uso da chamada medicina popular para tratar doenças. O que pouco se discute, no entanto, são os riscos da ingestão excessiva das infusões preparadas com ervas, que podem ir de uma dor de cabeça a danos em órgãos vitais.
Ao observar a falta de conhecimento sobre os efeitos adversos do consumo em excesso de plantas medicinais, o Instituto de Biociências da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Botucatu preparou uma cartilha para alertar sobre os principais efeitos colaterais das ervas mais consumidas na região. "Observamos que, por considerarem as plantas algo totalmente natural, imaginam que não há riscos", diz Maria José Queiroz de Freitas Alves, biomédica do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu, orientadora da pesquisa.
Ela acredita que, além de não ter consciência dos perigos, a população não sabe como tirar o melhor proveito dos princípios ativos das plantas. Como exemplo, cita o urucum, que tem propriedades antioxidantes conhecidas, mas que, se levado à fervura, libera toxinas. "Para utilizá-lo com segurança, é preciso deixá-lo em água fria por um tempo", diz.
Outro fator importante, quase sempre desconsiderado por quem busca os chás para tratamento, é a forma como a erva foi plantada. "O tipo de solo interfere, assim como o uso de agrotóxicos e a época de colheita. E é preciso saber se é melhor usar a erva seca ou fresca, as folhas ou flores", explica Alves.
É o caso da erva-doce (Foeniculum vulgare), também conhecida como funcho, cujo efeito diurético é mais forte na infusão das folhas, de acordo com uma pesquisa realizada por Débora Vendramini, doutoranda do CPQBA (Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas) da Universidade Estadual de Campinas. Em geral, os chás são preparados com os frutos. No estudo realizado em ratos, o aumento da diurese foi de 144% quando a infusão foi preparada com as folhas, contra 20% no uso dos frutos.
Publicidade irresponsável
A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) também constatou a necessidade de fornecer mais dados à população e prepara uma cartilha para ser divulgada no Estado do Rio de Janeiro. Foram consideradas para esse trabalho 20 das plantas mais citadas pelos vendedores de ervas do Mercado de Madureira, no Rio de Janeiro. "É uma loucura. Os "mateiros" descrevem inúmeras aplicações para uma mesma planta. E não há comprovação na literatura científica", diz Rosany Bochner, coordenadora do Sinitox (Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológicas), ligado à fundação.
A autônoma Izilda Aparecida Martins, 49, sofreu com a indicação de pessoas não-especializadas. Com pedra no rim, ela procurou uma infusão para ajudar no tratamento. O chá escolhido prometia ter bom efeito diurético, mas, na verdade, trouxe um problema: retenção de líquidos. "Comecei a tomar chá de porangaba por causa da publicidade forte, não eliminei a pedra e meu corpo começou a inchar", conta ela.
Outro exemplo de extrapolação de uso é a indicação do avelós (Euphorbia tirucalli) para tratar ou prevenir tumores. Como há algumas pesquisas em andamento com resultados positivos, a erva passou a ser muito procurada para o preparo de chás - mas a planta é tóxica e pode causar alergia. "Contra o câncer, busca-se o princípio ativo, não dá para trabalhar com extrato ou infusão feitos em casa", explica João Ernesto de Carvalho, biomédico e coordenador da Divisão de Farmacologia e Toxicologia do CPQBA da Unicamp.
O confrei (Symphytum officinale L.), que tem comercialização proibida para uso interno sob risco de causar problemas sérios no fígado, ainda pode ser encontrado facilmente para preparar infusões. "Essa planta já foi considerada "milagrosa" e é cicatrizante, mas só pode ser aplicada externamente", alerta Maria José Alves, da Unesp.
Para que haja maior controle no uso terapêutico das ervas, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) pretende lançar para consulta pública uma lista com 51 espécies de plantas que poderão ser comercializadas como ervas medicinais. A resolução regulamentará a notificação de espécies vegetais, com indicações terapêuticas baseadas na literatura científica. Como, até o momento, as ervas para chás comercializadas no país são regulamentadas como alimentos, não podem apresentar indicações terapêuticas nas embalagens.
Por: Julliane Silveira
Fonte: Folha de S.Paulo
31 outubro, 2008 - 10:41h
O Ibama no Piauí autuou Gilmar Chinelli Pereira, por desmatar a corte raso, sem autorização, 11.673 hectares de cerrado na localidade de Serra do Quilombo, no município de Bom Jesus, a cerca de 200 km da capital Teresina. A multa aplicada foi de R$ 5.836.500,00. O auto de infração do Ibama está pendente de julgamento, e o autuado tem direito à defesa.
Esse é o maior desmatamento individual registrado no Sistema de Cadastro de Arrecadação e Fiscalização-Sicafi, que existe desde 2006, onde são cadastrados todos os autos de infração lavrados pelos fiscais do Ibama. O autuado tem contra si outros três autos de infração do instituto por desmatamentos, e dois deles, lavrados em 2005, estão sendo cobrados judicialmente.
Os fiscais foram ao local e constataram a área destruída. A multa foi encaminhada ao autuado pelo correio no dia 17/10. A Superintendência do Ibama no Piauí encaminhou representação ao Ministério Público Federal, para abertura de ação contra o autuado na Justiça.
O superintendente do Ibama no Piauí, Romildo Mafra, determinou que as atividades na área sejam embargadas, apesar dela ter sido adquirida por um "terceiro de boa fé", e lamenta que "ainda existam pessoas que tem coragem de desmatar uma área desse tamanho, apostando na impunidade".
(Fonte: Assessoria de Comunicação / Ibama)
31 outubro, 2008 - 10:37h
O que poderá deter a mudança do clima? Como será o futuro da energia? Como todos poderão ter acesso à água? Questões importantes, ligadas com a proteção do clima e do ambiente.
"Lições da Alemanha" foi título de artigo do "Time" na primavera de 2008. No texto, a renomada revista norte-americana dava respostas detalhadas à pergunta: "O que podem aprender os estadunidenses com o país mais populoso da Europa?" Como a Alemanha poupa energia, reduz as emissões de dióxido de carbono e produz eletricidade a partir de fontes renováveis de energia? "Entre 1990 e 2005, a Alemanha reduziu suas emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE) em 18%", escreve a revista, "enquanto as emissões nos EUA aumentaram em 16% no mesmo espaço de tempo". A revista "Time" apresenta a imagem de uma nova Alemanha, em que os parques eólicos, as instalações de biogás e os tetos com coletores solares se tornaram parte costumeira da paisagem. O Governo alemão, esta é a tônica do artigo, abriu bem cedo o caminho para uma mudança: introduziu um imposto ambiental, a fim de reduzir o consumo de petróleo. Criou um sistema de reciclagem para poupar os recursos naturais e reaproveitar as matérias-primas. E, principalmente, implantou a Lei das Energias Renováveis (EEG).
De fato, a EEG que entrou em vigor no ano 2000 é a peça central da política energética e do clima da Alemanha. Ela encoraja os cidadãos, as empresas e os municípios a uma produção própria de eletricidade de fontes renováveis, que é então fornecida à rede, em troca de pagamento. Com isto, muitos produtores fazem um bom negócio. E a cota das energias renováveis no consumo de eletricidade pôde subir para 14% em poucos anos. A meta é uma cota de 25 até 30% no ano 2020. O modelo alemão da Lei das Energias Renováveis foi adotado até agora, em suas linhas gerais, por 47 países. Pois não apenas o clima tira proveito do programa de incentivo de mercado, mas também o setor econômico. Um terço das células-coletoras solares e quase a metade das turbinas eólicas são provenientes da Alemanha.
O ramo alemão de "greentech" é líder tecnológico e, segundo estudo recente, tem potencial para ultrapassar as bem-sucedidas indústrias mecânica e automobilística, no ano 2020, como o ramo industrial com o maior número de empregos. "Proteção ambiental e ocupação da mão-de-obra não são uma contradição. Ao contrário: ambas estão interligadas de maneira global", afirma o Ministro do Meio Ambiente, Sigmar Gabriel. Já se fala de uma "Terceira Revolução Industrial".
Isto não é tão utópico quanto pode parecer. Pois a proteção do meio ambiente e do clima está entre os maiores desafios globais do Século 21 e exige esforços enormes. Como se pode deter a mudança do clima? De onde virá a energia do futuro? Como poderá a crescente população mundial ser abastecida, de maneira suficiente e justa, com água e alimentos? Estas são as questões mais urgentes da nossa época. Por isto, a proteção ambiental se tornou, também, uma parte importante da política exterior alemã.
Como "política exterior para a proteção ambiental" os diplomatas entendem o trinômio "precauções vitais, prevenção de conflitos e ativa política de segurança". Pois as questões ambientais - por exemplo, a distribuição injusta de água - podem levar também a enormes tensões sociais e políticas. O Ministério das Relações Exteriores engaja-se assim, em diversos níveis, pela proteção internacional do meio ambiente: seja na negociação de acordos internacionais de proteção ambiental ou na organização de conferências.
Em Abril passado, 150 convidados dos setores econômico e político de cinco países da Ásia central participaram, no Ministério das Relações Exteriores em Berlim, da conferência intitulada "Água une". Durante a reunião, foi lançada a "Iniciativa da Água da Ásia Central", que encerra inúmeras cooperações e medidas de apoio, para combater os efeitos negativos da falta de água na região. No centro dos temas ambientais está a política energética e do clima.
Um campo em que a Alemanha assume um papel pioneiro, pretendendo alcançar metas ambiciosas de redução na luta contra a mudança do clima. A Alemanha já está muito próxima de cumprir o compromisso do Protocolo de Kyoto, de uma redução das emissões de GEE em 21% até 2012. Também no Índice Global de Proteção do Clima de 2008, que avalia o desempenho de proteção climática de 56 países, a Alemanha se apresenta muito bem, no segundo lugar, logo após a Suécia. Nos seus esforços, a Alemanha desenvolve uma estratégia dupla para aumentar a eficiência energética e dos recursos naturais, bem como para ampliar a utilização de energias renováveis e matérias-primas recultiváveis. Também na União Européia, a Alemanha está na dianteira.
As metas da União Européia até 2020, de reduzir as emissões de gases do Efeito Estufa em 20% em relação aos níveis de 1990, de aumentar a cota de energias renováveis para 20% da matriz energética e de reduzir o consumo energético em 20%, a Alemanha pretende superar em parte, desde que outros países a acompanhem.
Por iniciativa da Alemanha, os chefes de Estado e de Governo das oito principais nações industrializadas (G8) acertaram a redução pela metade das emissões de CO2 até 2050. Assim, pretende-se limitar a dois graus o aumento da temperatura média global.
A Alemanha também coopera de forma intensiva nos preparativos para a Conferência sobre o Clima em Copenhague, em 2009. Nessa reunião se tratará de assinar um novo e amplo documento de proteção ao clima, a fim de impedir que surja uma lacuna na proteção climática internacional, depois de terminada a vigência do Protocolo de Kyoto, em 2012. Grande prioridade na pauta de trabalhos é a integração dos países emergentes de economia avançada como China, Índia, África do Sul, Brasil e México. Pois sem estes parceiros, não é possível vencer o desafio global da proteção ao clima.
Seja energia eólica no Egito, hidrelétrica na Indonésia, biomassa no Nepal, geotermia no Quênia ou fotovoltaica na China: a Alemanha apóia em muitos países o abastecimento energético sustentável. A necessidade de energia dos países em desenvolvimento deverá se duplicar nos próximos 20 anos. Se for suprida com combustíveis fósseis, isto levará a uma enorme poluição ambiental. Muitos países em desenvolvimento e emergentes mantêm parceria energética com a Alemanha. Com tecnologia verde, conhecimentos técnicos e verbas de fomento, a Alemanha apóia um melhor aproveitamento do potencial de fontes energéticas inócuas ao clima, a exploração das energias renováveis e a ampliação da eficiência energética, especialmente em países da África, Ásia e América Latina.
Por: Martin Orth, jornalista do Deutschland Magazine
Fonte; Revista Eco 21 n142
31 outubro, 2008 - 10:33h
Recentemente, visitei uma feira sobre produtos e serviços para a indústria de processamento de carnes em Chapecó, SC. Entre as dezenas de estandes de empresas do ramo, encontrei um do governo do Mato Grosso, onde a pecuária é um dos pilares da economia (os outros são a agricultura e a extração de madeira) e um dos vetores do desmatamento.
Nos livretos de propaganda distribuídos aos visitantes, claro que não poderia faltar a menção, atualmente tão indispensável quanto vazia de significado prático ou real, ao tal "desenvolvimento sustentável", "conciliando os investimentos no agronegócio à preservação ambiental e à eqüidade social". No mais, as publicações patrocinadas pelo governo do estado têm aparentemente o objetivo implícito de maquiar a dura realidade sócio-ambiental mato-grossense e conseguir álibis para continuar com a farra, amparadas por uma altíssima qualidade gráfica e muito blá-blá-blá bem construído. Lendo as publicações, fica-se com a impressão de que Mato Grosso é quase a materialização do paraíso na Terra.
Para passar uma imagem ambientalmente correta, os folhetos afirmam que o objetivo é chegar a um máximo de 40% do estado com atividades agropecuárias, "assegurando a preservação de 60% com reservas ecológicas, indígenas, legais, parques nacionais, Pantanal e regiões de Floresta Amazônica".
Pois bem, o total utilizado para a agricultura e a pecuária já abrange 36,5% de Mato Grosso, pelos próprios dados oficiais apresentados. Contudo, segundo o IBGE, 54% do estado encontram-se dentro do bioma Amazônia, 39% no Cerrado e 7% no Pantanal. Por estas contas, e utilizando-se os valores definidos para Reserva Legal (a porcentagem da propriedade que o produtor deve manter intacta em sua propriedade, sendo de 80% na Floresta Amazônica e 35% no Cerrado), chega-se à conclusão de que somente 36,15% do estado poderiam ser legalmente desmatados. Logo, o desmatamento já passou do limite legal permitido.
Mas tem mais. Se considerarmos que parte do estado (19,5%) é composta por áreas indígenas ou de preservação, isto diminuiria ainda mais o percentual que poderia, em tese, ser desmatado. Então, de acordo com a legislação ambiental, Mato Grosso já está com um débito que precisaria ser recuperado para que, "na média", possa dizer que está tudo em ordem. Isto sem esquecer que não incluí nas minhas contas as Áreas de Preservação Permanente (áreas que os proprietários devem manter intactas, independentemente da Reserva Legal, como margens de rios e lagos, encostas íngremes e topos de morros). Resultado: o débito do estado já é enorme e as perdas devem então ser recuperadas se quisermos agir dentro da legalidade.
E olhe que ainda deixei dois pontos incômodos de lado. Um é o abandono de terras após ficarem degradadas e improdutivas - prática comum na Amazônia e para a qual não há dados precisos. O outro é que, para diversos locais, a mata que restou está fragmentada, alterada pela ação de madeireiros ou sofreu com a caça, que elimina principalmente vertebrados de grande porte como os grandes macacos, as antas e os porcos-do-mato. São pálidos arremedos de um ecossistema intacto e que irremediavelmente tende a perder mais biodiversidade. Então, governador Blairo Maggi, pode ir decretando moratória total do desmatamento e iniciando um programa avançado de recuperação de áreas.
Porém, ao invés, o sr. Maggi e seus marqueteiros tentam manobras sutis. Por exemplo, uma falácia, presente em um dos folhetos e que tem impacto direto nas contas do que poderia ser legalmente desmatado, é a de que apenas 20% do estado estariam na área de Floresta Amazônica. O restante estaria no Cerrado ou matas de transição, além do Pantanal. Fazer esta distorção ser aceita pela opinião pública e torná-la oficial é, já há algum tempo, uma luta do governador Blairo Maggi, que quer desclassificar as matas de transição como parte da Floresta Amazônica. O que, diga-se, não é verdadeiro se adotarmos alguns critérios objetivos, como a presença de seringueiras (cuja distribuição há mais de um século é usada como sinônimo da abrangência da Hylea Amazonica) e outras espécies típicas do bioma. Mais do que uma questão de opinião, de definição ou semântica, isto significaria reduzir o tamanho da Reserva Legal, reivindicação histórica do setor ruralista amazônico. E os ataques vêm de várias frentes, como um projeto de lei encaminhado ano passado pelo senador recentemente falecido Jonas Pinheiro (DEM-MT), que propunha retirar toda a área do estado (e de quebra o Tocantins e o Maranhão) da definição de Amazônia Legal.
Mesmo ignorando todos os cálculos acima e se aceitássemos os tais 40% nos quais o governo de Mato Grosso quer chegar, não temos garantia nenhuma como (e se) a fiscalização e a repressão atuariam depois de atingido este limite. E há claros indícios de que, na verdade, não há vontade política para tanto. Além de recursos financeiros e humanos consideráveis, a fiscalização/repressão exigiria ainda contrariar diversos interesses que, na região amazônica, freqüentemente aliam-se e imiscuem-se no poder. Primeiro, dos ruralistas, grupo que o próprio governador, o maior produtor de soja do Brasil e possivelmente do mundo, lidera.
Segundo, dos madeireiros, com forte poder político nos municípios onde a atividade é mais intensa. Terceiro, dos políticos locais que, mesmo nos casos em que não são diretamente ligados às forças anteriores, não querem nem ouvir falar em contrariá-las. Se nem o presidente quer indispor-se com elas, que dirá o governador, seu grande representante.
Na verdade, um dos principais inimigos da preservação no Mato Grosso é o fato de que toda a política relacionada à produção agropecuária, não apenas dali, mas do próprio Estado brasileiro, vai no sentido oposto, incentivando o crescimento desenfreado da produção. Ou seja, seria necessário inverter uma lógica que vem dominando o cenário desde muito tempo, e que foi fortalecida nas últimas décadas.
Por tudo que foi analisado aqui, fica difícil acreditar, apesar da qualidade da edição dos materiais gráficos, na propaganda de um "desenvolvimento sustentável" no Mato Grosso. Uma piada triste que corre por aí é que, do jeito que as coisas estão (alta degradação, avanço da pecuária e agricultura, descontrole do desmatamento e tendências de piora em todos estes pontos), o nome do estado já poderia mudar para Mato Ralo.
Por:Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews.
Fonte: Correio da Cidadania
31 outubro, 2008 - 10:30h
Um novo informe da Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma que a emergente economia ambiental poderá criar dezenas de milhões de novos "empregos verdes"
Um novo estudo realizado pelo acordo "Iniciativa Conjunta sobre Empregos Verdes" sobre o impacto da emergente "economia verde" no mundo do trabalho, afirma que os esforços para combater as mudanças climáticas poderiam conduzir à criação de milhões de "empregos verdes" nas próximas décadas. O Relatório, intitulado "Empregos Verdes: Trabalho Decente em um Mundo Sustentável e com Baixas Emissões de Carbono" (Green Jobs: Towards Decent Work in a Sustainable, Low-Carbon World) afirma que a transformação de modelos de empregos e investimentos como conseqüência dos esforços por reduzir as mudanças climáticas e seus efeitos geram novos empregos em muitos setores e economias e poderiam criar milhões de novos postos de trabalho tanto nos países industrializados quanto nos países em desenvolvimento.
O Relatório foi encomendado e financiado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) no âmbito da "Iniciativa Conjunta sobre Empregos Verdes" do PNUMA, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Organização Internacional de Empregadores (OIE) e da Confederação Sindical Internacional (CSI) que, juntas, representam milhões de empregadores e trabalhadores em todo o mundo(1). Foi elaborado pelo Instituto da Vigilância Mundial (Worldwatch Institute) com assistência técnica do Cornell University Global Labour Institute.
O Brasil é citado no Relatório: "Na atualidade, a reciclagem e a gestão de dejetos emprega cerca de 10 milhões de pessoas na China e 500 mil no Brasil. Espera-se que este setor cresça com rapidez em muitos países frente ao aumento dos preços das matérias-primas".
Mas o documento também alerta que o processo das mudanças climáticas em curso continuará gerando efeitos negativos sobre os trabalhadores e suas famílias, em especial sobre aqueles cujo modo de vida depende da agricultura e do turismo. É urgente que as ações para combater as mudanças climáticas, além de enfrentar seus efeitos, sejam formuladas para gerar trabalho decente, acrescenta.
Apesar do Relatório ser otimista sobre a criação de novos empregos para enfrentar as mudanças climáticas, também alerta que muitos destes postos podem ser "sujos, perigosos e difíceis". As áreas que despertam preocupação - em especial, ainda que não exclusivamente nas economias em desenvolvimento - incluem a agricultura e a reciclagem, onde é necessário modificar com rapidez situações de baixos salários, insegurança nos contratos de trabalho e exposição a materiais perigosos.
O Relatório diz ainda que são criados muito poucos empregos verdes para os mais vulneráveis, ou seja os cerca de 1,3 bilhão de trabalhadores pobres (43% da força de trabalho mundial) do mundo com rendimentos tão baixos que não lhes permitem a eles e tampouco a seus familiares superar o umbral da pobreza de 2 dólares por dia, ou os cerca de 500 milhões de jovens que procurarão trabalho nos próximos dez anos.
Os empregos verdes reduzem o impacto ambiental das empresas e atividades econômicas a níveis sustentáveis. O relatório se concentra em "empregos verdes" na agricultura, indústria, serviços e administração que ajudem a preservar ou restabelecer a qualidade do ambiente. Além disso, faz um apelo para que sejam adotadas medidas capazes de garantir trabalho decente com o objetivo de reduzir a pobreza ao mesmo tempo em que se protege o meio ambiente.
O Relatório afirma, também, que as mudanças climáticas, o processo de adaptação e os esforços para freá-las com a redução de emissões, têm repercussões de longo alcance no desenvolvimento econômico e social, nos modelos de produção e, portanto, no emprego, renda e redução da pobreza. Estas repercussões implicam tanto maiores riscos como oportunidades de emprego para os trabalhadores em todos os países, mas em particular para os mais vulneráveis, nos países menos desenvolvidos.
O documento do PNUMA e da OIT faz um apelo no sentido de serem criadas condições para que se produza uma "transição justa" em relação aos que forem afetados pela mudança em direção a uma economia verde e para aqueles que devem se adaptar às mudanças climáticas, facilitando o acesso a oportunidades de emprego e de atividades econômicas alternativas para empresas e trabalhadores.
De acordo com o relatório, é essencial um diálogo social entre governos, trabalhadores e empregadores, não somente para aliviar as tensões e propiciar a formulação de políticas ambientais, econômicas e sociais melhor informadas e mais coerentes, mas também para envolver os interlocutores sociais no desenvolvimento destas políticas.
Conclusões importantes do Relatório
• O mercado global de produtos e serviços ambientais deveria aumentar dos atuais 1.370 bilhão de dólares por ano para 2.740 bilhões de dólares em 2020, de acordo com um estudo citado no relatório.
• A metade deste mercado se refere a eficiência energética e o resto a transporte sustentável, fornecimento de água, gestão de serviços sanitários e de dejetos. Na Alemanha, por exemplo, a tecnologia ambiental será quadruplicada até alcançar 16 por cento da produção industrial em 2030; a previsão é de que o emprego neste setor superará o da grande indústria automobilística e de máquinas e ferramentas desse país.
• Os setores que terão especial importância em termos de impacto ambiental, econômico e no emprego são o fornecimento de energia, em particular a energia renovável, edifícios e construção, transporte, indústrias básicas, agrícola e florestal.
• Nos Estados Unidos, as tecnologias limpas constituem o terceiro setor que capta mais capital de risco depois do setor de informação e de biotecnologia. Na China, o capital de risco verde duplicou até alcançar 19 por cento do total dos investimentos realizados nos últimos anos.
• 2.3 milhões de pessoas obtiveram novos empregos no setor da energia renovável nos últimos anos e o potencial de crescimento do emprego neste setor é enorme. O emprego em energias alternativas poderia crescer até 2,1 milhões em energia eólica e 6,3 milhões na solar.
• A energia renovável gera mais trabalhos que os combustíveis fósseis. Estão previstos investimentos de 630 bilhões de dólares até 2030, que se traduziriam em pelo menos 20 milhões de novos empregos neste setor.
• Na agricultura, 12 milhões de pessoas poderiam trabalhar em biomassa para a produção de energia e outras indústrias relacionadas. Em um país como a Venezuela, uma mistura de etanol de 10 por cento nos combustíveis poderá gerar um milhão de empregos na indústria da cana-de-açúcar até 2012.
• Uma transição em direção à eficiência energética nas residências em nível mundial poderia gerar milhões de postos de trabalho, ao mesmo tempo em que tornaria mais limpo os empregos existentes para muitos dos cerca de 111 milhões de trabalhadores que atuam no setor da construção.
• Investimentos no aumento da eficiência energética dos edifícios poderiam gerar entre 2 a 3,5 milhões de empregos verdes na Europa e nos Estados Unidos, com um potencial muito mais alto para os países em desenvolvimento.
O relatório oferece exemplos da criação massiva de empregos verdes em todo o mundo: na China, 600 mil pessoas estão empregadas na produção de energia térmica e na instalação de produtos como aquecedores solares de água.
Na Nigéria, a indústria de biocombustíveis baseada no cultivo da mandioca e da cana-de-açúcar poderia sustentar e empregar 200 mil pessoas; na Índia, até 2015 poderiam ser criados 900 mil empregos na gaseificação de biomassa, dos quais 300 mil na fabricação de fornos e 600 mil em áreas como a fabricação de briquetes e grãos na cadeia de fornecimento de combustível; na África do Sul, 25 mil pessoas desempregadas trabalham agora na conservação como parte da iniciativa "Working for Water". "Uma economia sustentável não pode continuar mantendo os custos ambientais e sociais. O preço que a sociedade paga pelas conseqüências da contaminação ou de doenças deve refletir-se nos preços do mercado. Portanto, os empregos verdes devem ser trabalho decente", diz o Relatório.
O estudo recomenda uma série de alternativas para que se avance até um futuro mais sustentável investindo em medidas de baixo custo que deveriam ser tomadas imediatamente e que incluem: a avaliação do potencial para empregos verdes e acompanhamento dos progressos para constituir um marco de políticas e investimentos; abordar o atual gargalo das qualificações profissionais e satisfazer as exigências de capacitação porque a disponibilidade de tecnologia e recursos para investimentos somente pode se desenvolver de maneira eficaz com empresários qualificados e trabalhadores capacitados.
Também recomenda garantir a contribuição das empresas e do setor econômico na redução das emissões de Gases de Efeito Estufa e com iniciativas para gerar emprego em locais de trabalho verdes. O relatório mostra que os mercados prosperam e a transformação avança, sobretudo nos países onde houve um apoio político forte e consistente nos mais altos níveis, incluindo objetivos, sanções e incentivos, como leis e normas de eficiência para edifícios e eletrodomésticos, bem como para pesquisa ativa e desenvolvimento.
O Relatório recomenda, além disso, a redistribuição de subsídios, benefícios das ecotaxas e da venda pública dos créditos de carbono que geram enormes fluxos de recursos traduzidos em centenas de bilhões de dólares. Os recursos que são gerados na Europa e nos Estados Unidos seriam suficientes para apoiar economias mais verdes e para a criação de empregos verdes tanto no Sul quando no Norte industrializado. A cooperação Sul-Sul pode desempenhar um papel mais importante ao transferir tecnologias provadas e conhecimentos práticos.
Também afirma que, para acelerar o crescimento dos empregos verdes, é vital obter um novo acordo sobre o clima, mais decisivo e de maior alcance, quando os países se reunirem na Cúpula das Nações Unidas sobre o clima que se realizará em Copenhague em final de 2009.
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(1) A "Iniciativa Conjunta sobre Empregos Verdes" é um acordo estabelecido em 2007 entre o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Confederação Sindical Internacional (CSI). A Organização Internacional de Empregadores (OIE) aderiu em 2008. A Iniciativa foi lançada com o objetivo de promover oportunidades, equidade e transições justas; mobilizar governos, empregadores e trabalhadores a participar do diálogo sobre políticas coerentes e programas eficazes orientados para uma economia verde com empregos verdes e os trabalhadores de seus Estados-membros em uma ação comum para promover trabalho decente no mundo. A OIE é reconhecida como a única organização em nível internacional que representa os interesses das empresas no âmbito das políticas trabalhistas e sociais. Atualmente é formada por 146 organizações de empregadores de 138 países em todo o mundo. CSI é a Confederação Internacional de Trabalhadores. Sua principal missão é a promoção e a defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores através da cooperação internacional entre sindicatos, campanhas globais e atividades de conscientização dentro das principais instituições mundiais. A CSI representa 168 milhões de trabalhadores em 155 países e tem 311 afiliados nacionais. PNUMA é o Programa para o Meio Ambiente dentro do sistema das Nações Unidas. É promotor, educador e catalisador ao apoiar o uso inteligente dos recursos naturais do Planeta para alcançar um desenvolvimento sustentável.
Por: Juan Somavia, Diretor-Geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT)
Fonte: Revista Eco21
31 outubro, 2008 - 10:26h
O título deste artigo é menos absurdo do que pode parecer à primeira vista. Nos últimos anos, estão cada vez mais freqüentes as denúncias de EIA-RIMAs (Estudo de Impacto Ambiental - Relatório de Impacto Ambiental) tecnicamente inconsistentes ou fraudulentamente produzidos. E isto é um problema extremamente sério.
Para compreender, de forma sintética, o que são e para que servem os EIA-RIMAs, recomendamos a leitura das informações em http://www.geofiscal.eng.br/eia.htm, que serão muito úteis aos leitores.
Voltando à questão principal, já é evidente que surgiu uma indústria de EIA-RIMAs, pré-fabricados apenas e tão somente para atender às exigências legais mínimas. A cada dia surgem novos questionamentos sobre a veracidade destes estudos.
Neste sentido, encontram-se os casos das hidrelétricas de Barra Grande, das usinas no rio Madeira e outros casos escandalosos. Sobre Barra Grande, recomendamos que pesquisem no próprio EcoDebate e em http://www.consciencia.net/2004/mes/10/barragrande-crime.html . No Ecodebate, a tag "licenciamento ambiental" é rica em detalhes deste problema que se agrava.
As ambientalistas Ana Echevenguá (Eco&Ação) e Telma Monteiro (Blog Telma Monteiro) são figuras importantes nas denúncias dos licenciamentos de mentirinha, tão do agrado dos grandes interesses econômicos e do governo desenvolvimentista de plantão. Em seus sítios/blogues discutem, denunciam e expõem esta "linha de montagem" de licenciamentos com clareza e profundidade.
Este governo não consegue compreender que o processo de licenciamento ambiental é "ligeiramente" diferente da concessão de um mero alvará e por isso não suporta a idéia de que as licenças não sejam concedidas automaticamente, como se fossem meros detalhes burocráticos.
Se dependesse do voluntarismo governamental, teríamos ampla e irrestrita concessão de licenças ambientais para quaisquer atividades, sem qualquer consideração para com as questões sócio-ambientais.
Diversos membros do primeiro círculo do poder já afirmaram que a grande fase do desenvolvimento do Brasil se deu durante os governos militares, coincidentemente uma época em que as preocupações sociais e ambientais das grandes obras simplesmente inexistiam.
Aliás, o presidente Luiz Inácio da Silva não cansa de elogiar os projetos dos governos militares, quando a agenda desenvolvimentista era imposta na marra.
O governo, a começar pelo próprio presidente, reclama dos ambientalistas, dos índios, dos quilombolas, dos ribeirinhos, do Ministério Público, do Poder Judiciário, dos movimentos sociais e de todos os que não concordam com esta opção pseudo-desenvolvimentista. E reclama com razão, porque estes segmentos da sociedade não aceitam este modelo de desenvolvimento a qualquer custo.
Enquanto isto, a tragédia dos licenciamentos de mentirinha se agrava. Os erros e inconsistências são de tal monta que os órgãos ambientais em muitos casos chegam a exigir tantas condicionantes que praticamente equivalem a outro EIA.
Isto, em princípio, não seria um problema se os órgãos ambientais não estivessem sucateados, sem funcionários técnicos e com uma inadequada estrutura técnico-administrativa.
A fragilização estrutural, a falta de funcionários capacitados e corretamente qualificados e a falta de suporte de adequadas políticas públicas dificultam a avaliação técnica dos licenciamentos e abrem portas aos oportunistas. Isto é um problema com mais de 10 anos e continua a se agravar.
Outra questão que está sempre presente é o abandono dos compromissos de mitigação e compensação exigidos na Licença Prévia. Os empreendedores sabem que os órgãos ambientais não conseguirão fiscalizar o cumprimento das condicionantes antes da Licença de Operação (LO) e, neste momento, não terão apoio político para revogar o licenciamento.
E a indústria de EIA-RIMAs apenas piora o problema. Bem, mas o que fazer?
Já foi um grande avanço quando o IBAMA suspendeu a licença ambiental para Hidrelétrica do Baixo Iguaçu (PR) , em razão de uma ação civil pública. O empreendimento seria construído nos municípios de Capanema e Capitão Leônidas Marques, a cerca de 500 metros do Parque Nacional do Iguaçu. A ação afirma que o estudo de impacto ambiental e o relatório de impacto ambiental (EIA/Rima) têm lacunas e omissões que impedem o dimensionamento adequado dos impactos que a construção provocaria.
Em primeiro lugar, é evidente que o licenciamento existe para ser rigorosamente observado. E não existe a obrigatoriedade de licenciar toda e qualquer obra, só porque uma empresa e/ou o governo querem que assim seja.
Para isto, os órgãos ambientais, na medida do possível, já estão fazendo o que devem - analisando com rigor e critério. Ao empreendedor cabe o risco de ter a análise tão demorada quanto o EIA-RIMA for impreciso ou inconsistente. E, se for o caso, ter o licenciamento negado.
Em segundo, no caso federal, excluir do Cadastro Técnico Federal todas as empresas que tenham "produzido" estudos sem qualidade técnica. No caso de fraude, ela deve ser tratada como realmente é: como criminosa. E aos empreendedores, co-responsáveis no EIA-RIMA fraudulento, ficará o ônus do licenciamento negado.
E, por fim, os Conselhos Regionais, dos profissionais que subscrevem os EIA-RIMAs inconsistentes ou fraudulentos, devem apurar as responsabilidades profissionais e, definidas as responsabilidades em processos administrativos, aplicar as penalidades previstas em lei, inclusive a cassação do registro profissional.
Esta crise só terminará quando acabar a impunidade e é isto que devemos exigir.
Por: Henrique Cortez é ambientalista e coordenador do Portal EcoDebate.
Fonte: Correio da Cidadania
31 outubro, 2008 - 10:24h
No lançamento oficial do novo World Register of Marine Especies (Registro Mundial de Espécies Marinhas - www.marinespecies.org), 55 pesquisadores de 17 países se reuniram na Bélgica para discutir a conclusão do projeto - prevista para 2010. Pesquisadores e especialistas independentes da World Register estimam que hoje apenas 230.000 espécies marinhas tenham sido registradas pela comunidade científica. Acredita-se, no entanto, que o número de espécies não catalogadas é três vezes maior do que a que temos conhecimento, indicando que, se contabilizados, os números de espécies conhecidas poderiam ultrapassar a barreira do milhão. O novo registro contém aproximadamente 122.500 nomes válidos de espécies (contudo os especialistas calculam que, do total analisado, aproximadamente 56.400 nomes reaparecem no registro com outra nomenclatura – o que corresponde a 32% do material revisado).
“Avisos sobre o declínio populacional dos peixes e outras espécies marinhas precisam ser baseados em informações válidas pelos censos para que sejam convincentes.” Afirma Mark Costello, da Universidade de Auckland, co-fundador do World Register e oficial sênior do Census of Marine Life (Censo da Vida Marinha - CoML). “Este projeto proporcionará informações vitais a pesquisadores e educadores que investigam a pesca marinha, as espécies ameaçadas, as espécies deslocadas e o funcionamento de ecossistemas marinhos, eliminando a possibilidade de controvérsias e discrepâncias a respeito das nomenclaturas derivadas do latim, redundâncias de certos termos e uma série de problemas que geram confusão e atrasam o progresso científico”, acrescentou. Algumas das espécies, reclassificadas de acordo com as novas bases de informações adquiridas nos últimos anos, revelaram possuir denominações distintas.
Nos casos onde há diferentes nomes para mesmos seres, os nomes que apresentarem os registros mais antigos serão os validados, apesar de todas outras nomenclaturas também serem citadas para facilitar futuras pesquisas e preservar um conhecimento adquirido ao longo dos séculos passados.
Popularmente conhecida como esponja “migalha de pão”, ou “breadcrumb sponge”, a espécie marinha Halichondria panicea, descrita pela primeira vez em 1766, aparece com 56 sinônimos diferentes na literatura taxonômica, sendo declarada campeã quando o assunto é diversidade denominativa. Sem residência fixa, esta espécie é conhecida por flutuar pelos oceanos – se amontoando freqüentemente nas laterais de rochas – e por possuir um forte odor de pólvora. Ela pode também aparecer de diferentes formas (como ilustram as fotos acima). A Halichondria panicea também é conhecida como: Alcyonium manusdiaboli (1794), Spongia compacta (1806), Halichondria albescens (1818), Seriatula seriata (1826), Hymeniacidon brettii (1866), Pellina bibula (1870), Amorphina appendiculata (1875), Isodictya crassa (1882), Microciona tumulosa (1882), Menanetia minchini (1896), Trachyopsilla glaberrima (1931) e outros 44 nomes diferentes.
Nenhum material de pesquisa foi descartado pelos pesquisadores do World Register – nem mesmo o de Carl Lineu, que em 1750 conseguiu superar a Torre de Babel erguida pela comunidade científica a respeito das nomenclaturas das espécies, e estabeleceu um simples sistema de nomenclaturas binomiais que utiliza nomes compostos derivados do latim – onde a primeira palavra, genus (em maiúsculo), é acompanhada por um epíteto específico (em minúsculo). Graças a este sistema, um peixe que é conhecido como bulot nos mercados de Paris, como whelk na Nova Inglaterra ou como buccin no Canadá, (e como Wellhornschnecke do Mar Nórdico), será também conhecido universalmente como Buccinum undatum pela comunidade científica.
No entanto, apesar do esforço em criar um sistema preciso de denominação, o método se provou falho já que, anos mais tarde, foram descobertas quatro baleias cachalotes da mesma espécie equivocadamente assinaladas com nomes diferentes, erro este encontrado ainda hoje em diversas literaturas e bases de dados da biologia.
O trabalho realizado pelo World Register busca estabelecer, de uma vez por todas, um registro amplo e universal das espécies marinhas para auxiliar futuros pesquisadores, especialistas, cientistas e educadores da área. Segundo Philippe Bouchet, um dos cientistas do World Register: “Descrever espécies sem um registro universal é como organizar uma biblioteca sem catálogo”.
Alto índice de descobertas foge a capacidade de descrição
Pesquisadores do Census of Marine Life (CoML) e de outras organizações vêm se deparando com um curioso problema na área da pesquisa marinha: devido a falta de profissionais, o número de espécies descobertas supera a capacidade de catalogá-las adequadamente. Segundo Bouchet, se calcula que, anualmente, aproximadamente 3.800 taxonomistas acrescentam cerca de 1.400 novas espécies marinhas aos registros literários da biologia. Isto significa que para catalogar, descrever e verificar precisamente todas espécies restantes da fauna oceânica, seriam necessários cinco séculos de pesquisa.
Como resultado, a cooperação em escala global dirigida pela CoML e o World Register tornou-se uma medida necessária para que novas informações a respeito das criaturas marítimas sejam analisadas e validadas de forma rápida, barata e eficiente. Para isso, a organização fez investimentos nas áreas de coleta de exemplares, captura de imagem, armazenamento de dados, análise genética (código de DNA), criou programas de treinamento para a formação de taxonomistas e apoiou iniciativas online como as do ZooBank, que distribui oficialmente registros permanentes de identificação para novas espécies.
Abrigada na Bélgica pelo Flanders Marine Institute, o World Register já recebeu apoio em recursos de diversas fontes. Nesta lista estão incluídos a plataforma de pesquisa da União Européia, Marine Biodiversity and Ecosystem Functioning (Funcionamento do Ecossistema e Biodiversidade Marinha - MarBEF), o projeto Pan-European Species-Directories Infrastructures (Infraestrutura Pan-européia de Diretório de Espécies - PESI), o European Register of Marine Species (Registro Europeu de Espécies Marinhas), o Espécies 2000 Europa, o projeto International Census of Marine Microbes (Censo Internacional de Micróbios Marinhos) do CoML, a Fundação Richard Lounsbery e o Global Biodiversity Information Facility (Centro de Informações de Biodiversidade Global).
O banco de dados reunido pelo World Register também servirá como espinha dorsal para outro investidor, o Ocean Biogeographic Information System (Sistema Biogeográfico de Informação - OBIS), que já contribuiu com um vasto leque de informações sobre milhares de diferentes espécies, incluindo relatórios sobre a distribuição global de certas espécies e diversos outros dados, afirma Mark Costello, fundador da OBIS.
O World Register também contribuirá com suas pesquisas como referência a diversas empresas interessadas na biodiversidade global, que conta com a Encyclopedia of Life (Enciclopédia da Vida) criando uma página na Internet para cada espécie, e com o Species 2000, organizando uma lista válida para o 1,8 milhões de animais, plantas e fungos vivos no mundo, terrestres e aquáticos.
“Os meios tecnológicos atuais nos permitem, através de uma colaboração global sem precedentes, consolidar, validar e avançar de forma impressionante na tarefa de registrar as espécies que vivem sob as ondas do mar”. Diz Edward Vanden Berghe, chefe do OBIS na Universidade Rutgers, em Nova Jersey, e responsável pelas primeiras pesquisas do World Register enquanto ainda trabalhava no Flander Marine Institute. “O World Register of Marine Especies e o Ocean Biogeographic Information System serão os legados mais importantes do Census of Marine Life.”
Quantas espécies existem no mar?
No encontro realizado este ano na Bélgica, o World Register se comprometeu em anunciar, ao final de 2008, cerca de 200.000 nomes válidos de espécies marinhas, e acrescentou que a lista completa, estimada em 230.000 espécies conhecidas, será divulgada em Outubro de 2010, quando for concluído o First Census of Marine Life (Primeiro Censo da Vida Marinha).
“A análise final de milhares de espécies que ainda não foram avaliadas será trabalhosa já que, em certos casos, as descrições são inadequadas e em outros faltam exemplares”, comenta Ron O’Dor, cientista chefe da CoML. “Se por um acaso esses registros forem baseados em provas superficiais ou controvérsias, os peritos terão o direito de duvidar da validade das informações”, conclui.
Estimativas preliminares da CoML indicam que, em oito anos de exploração, milhares de novas espécies foram encontradas, mas apenas 110 delas concluíram o processo de avaliação descritiva. Apesar do esforço de colaboradores da CoML, fica claro que a base de dados do World Register ainda está longe de comportar com a eficiência desejada o alto índice de descobertas que ainda estão sendo feitas.
O processo de análise e descrição de novas espécies, que envolve um exaustivo trabalho de comparação, documentação, revisão, publicação e exposição de material, tende a durar anos devido à complexidade de avaliação das espécies. O projeto liderado pelo CoML – maior projeto de pesquisa global da biodiversidade marinha, que conta com pesquisadores de 80 países diferentes –, visa facilitar o acesso a estas descobertas e elucidar as questões da biodiversidade oceânica do passado, presente e futuro.
No ano 2000, 17 projetos que examinavam todos os aspectos da vida marinha – 14 dos quais ainda conduziam pesquisas de campo – interromperam sua fase de coleta de dados e passaram para a fase de análise. O objetivo dos pesquisadores é garantir a conclusão do primeiro relatório do Census of Marine Life, previsto para 2010. Este relatório trará luz às informações imprecisas sobre a biodiversidade marinha e as constantes mudanças do meio ambiente.
Em partes isoladas do mundo como as profundezas do mar, os trópicos e os mares que circulam a Antártica, o número de descobertas de novas espécies pode superar em até 80% o número de espécies capturadas, especialmente quando se trata de animais de pequeno porte como crustáceos, vermes e moluscos.
Segundo Ann Bucklin, Diretora do CoML Plankton Project, se o ritmo de documentação se mantiver estável, prevê-se a duplicação das espécies conhecidas de plânctons no Planeta, um número que consistia em 7.000 espécies no início de 2008.
“Um dos maiores prazeres de um pesquisador é descobrir uma espécie desconhecida pela ciência.” Aponta Ian Poiner, representante-chefe do braço australiano do Scientific Steering Committee (Comitê Científico de Desenvolvimento) do CoML. “A realização de uma descoberta dá ao pesquisador o direito único de nomear uma espécie. Com o passar dos anos, novas espécies serão avaliadas e registradas na literatura da biologia, o que significa que um pesquisador poderá herdar inúmeras vezes esse direito– contribuição que esperamos que ocorra com freqüência para que possamos enriquecer o Censo e alimentar a base de dados do World Register.
“O que em primeira instância aparenta ser uma tarefa simples, é de fato apenas um dos desdobramentos do projeto. O processo de validar e registrar nomes de espécies já analisadas precisa agir simultaneamente com o processo de descoberta de novas espécies”, afirma Ward Appletans, diretor de dados do World Register e colaborador do Flanders Marine Institute (VLIZ), acrescentando que, para cada grupo de pesquisadores da área de taxonomia, há um representante perito que controla a qualidade de informação inserida no banco de dados.
“O fato de que, a cada ano, encontramos mais de 100 espécimes novos da fauna marinha, é impressionante. Enquanto buscamos traços de vida em Marte, ignoramos os mistérios ainda não revelados bem embaixo dos nossos narizes”, conclui ele.
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Por: Terry Collins, Cientista da Census of Marine Life
Tradução: João Philippe Inada
Fonte: Revista Eco 21 nº 143
31 outubro, 2008 - 10:22h
Em geral, tento não perder tempo com os eventos e convescotes dos ricos, famosos e celebridades, mas uma matéria publicada pelo Meio & Mensagem Online [Luxo pauta evento eqüestre em São Paulo, de Eduardo Duarte Zanelato, 15/10/2008 - 19:10] realmente me chocou mais do que de costume.
A matéria destaca que, em sua segunda edição, o Athina Onassis International Horse Show virou vitrine para o segmento premium e recebeu aportes milionários de grandes anunciantes.
Mas, antes de fazer as minhas considerações, acho que os(as) leitores(as) devem ler a citada matéria, para avaliarem melhor a questão:
"Teve início nesta quarta-feira, 15, a segunda edição da etapa brasileira do Athina Onassis International Horse Show (AOIHS), etapa tupiniquim do Global Champions Tour, competição que reúne os 30 melhores cavaleiros do mundo. O evento recebeu R$ 14 milhões em investimentos, e conta com patrocínio master (cotas a R$ 2,2 milhões) de Bradesco, CSN e Nestlé. Outras 17 cotas foram comercializadas entre patrocínios Silver (R$ 220 mil), Gold (R$ 550 mil) e Platinum (R$ 1,1 milhão, com exclusividade em relação a outras empresas do mesmo segmento). Além de ter diminuído o número de cotas, nesta edição a organização reorganizou a comercialização do AOIHS. "Este ano criamos uma estrutura comercial, que se dividiu entre ISG, Aktuell, DZ Eventos, Wertt e SportCom", detalha André Beck, diretor-geral da competição.
A diminuição de cotas, de acordo com Beck, foi pensada em prol dos cotistas, que ganham mais visibilidade para suas marcas com a redução. O AOIHS é palco para essas empresas apresentarem produtos voltados ao segmento premium (o chamado público AAA), ao mesmo tempo em que buscam fidelizá-lo e despertar o desejo de consumo na classe média alta, também presente ao evento.
A Nestlé, por exemplo, promoverá diversas marcas. A menina dos olhos da multinacional é o chocolate Nestlé Gold, importado da Suiça e com teor de 70% de cacau. ‘Uma competição esportiva como essa está totalmente alinhada com nossas estratégias, além de ser um excelente momento para que a Nestlé possa apresentar seus lançamentos em primeira mão aos visitantes', defende Izael Sinem, diretor de comunicação e serviços de marketing da empresa. As outras submarcas da Nestlé presentes na disputa realizada na Sociedade Hípica Paulista são Nespresso, Sollys (bebida à base de soja) e Sopas Maggi.
Refugo
Originalmente previsto para ocorrer entre 8 e 12 de outubro, o evento foi desmarcado e adiado para a atual data pois um caso de mormo, doença eqüina altamente contagiosa, foi registrada no país. A organização, entretanto, montou um plano de guerra para trazer os animais competidores ao Brasil e recebeu a aprovação do board internacional do campeonato para realizar a etapa por aqui.
Com realização garantida e em virtude da excelente entrega do evento de 2007, o Brasil foi agraciado com a sétima e última etapa do Global Champions Tour e, por isso, deve oferecer premiação recorde de 1,84 milhão de euros, já que sedia a etapa final da competição.
Enquanto o milhão não é dividido entre os atletas, os interessados que passarem pelo AOIHS poderão se esbaldar em ações exclusivas de marcas como Rolex, Hyundai, CN, CN Worldwide, Mapfre Seguros, Amil, Pamcary, Usiminas e Gerdau. A Editora Glamurama marca presença com estande que oferecerá brindes especiais e quitutes refinados para promover os títulos Poder e Joyce Pascowitch".
Em princípio, nada contra estes milionários convescotes, mas realmente é chocante ver como empresas jogam dinheiro fora, com "eventos" completamente irrelevantes para a sociedade.
A maioria das organizações sociais sabe como é desgastante buscar apoio e patrocínio para projetos sociais, culturais e ambientais de interesse e relevância para a sociedade. Na maioria das vezes não vamos além de um ritual de humilhação.
Algumas vezes, as grandes empresas, educadamente, rejeitam as propostas, socialmente relevantes, afirmando que não tem verbas. Agora acredito que seja verdade, porque já estavam comprometidas com patrocínios de ilhas, castelos, festas vip, baladas e eventos esportivos "populares", como o Athina Onassis International Horse Show.
Cada um gasta o seu dinheiro como quer, mas isto não é necessariamente verdade nas empresas. Quem "sustenta" o Bradesco e a Nestlé, por exemplo, não são os ricos e famosos, mas as pessoas simples e "invisíveis". É o povão que sustenta a atividade destas empresas, mas não é convidado para a festa, apenas para pagar a conta.
As empresas não possuem caráter, temperamento, atitude, consciência ou responsabilidade. Estas características humanas são decorrentes de seus acionistas e executivos, que por sua vez podem ser os nossos amigos, parentes, vizinhos etc. Eles são tão responsáveis socialmente quanto a sociedade espera e cobra que eles sejam. Simples assim.
Reclamamos da falta de responsabilidade e compromisso social, mas não exercemos um controle social mais efetivo. As empresas que maquiaram produtos em suas quantidades ou peso continuam no mercado normalmente e algumas continuam líderes de seus segmentos. No entanto, uma empresa que mentiu descaradamente, com o claro e definido objetivo de enganar o consumidor, deveria enfrentar conseqüências legais e mercadológicas sérias. Sabemos que nada aconteceu, salvo o consumidor saber que foi enganado e conformar-se com isto. A mesma lógica perversa aplica-se aos acionistas e executivos ou às próprias empresas, porque, além da tradicional impunidade, não enfrentarão qualquer tipo de rejeição social.
A responsabilidade por esta situação, no entanto, é da sociedade civil, é de todos nós. Devemos ter o compromisso de apenas adquirir bens e serviços das empresas que realmente tenham uma atitude correta e respeitosa com a sociedade e para com o mercado consumidor. Afinal é a sociedade, enquanto mercado consumidor, quem efetivamente sustenta a atividade empresarial.
Voltando ao evento, compreendemos os cuidados e os custos, porque cada um destes cavalos custa, em cuidados e alimentação, mais de R$ 3 mil ao dia. Eles são de raça e merecem; pena que, ao mesmo tempo, 14 milhões de brasileiros vivem (ou sobrevivem) em situação de insegurança alimentar. É como se estes nababos pensassem que os cavalos são de raça, mas os pobres são vira-latas.
Ao que parece, a nova aristocracia do século XXI não aprendeu nada com as lições da revolução francesa.
Em suma, uma festa milionária como esta é uma afronta à maioria da população. Aliás, é mais uma das incontáveis festas patrocinadas para os vips, famosos, celebridades e milionários entediados.
Mas tudo tem solução. A melhor e mais efetiva é que a população trate as empresas com o mesmo respeito que elas efetivamente têm para com sociedade que sustenta a atividade empresarial.
É o que faço. Como muitos outros, digo não às empresas, políticos e cidadãos comuns que possuem atitudes ou comportamentos que ferem os meus princípios, compromissos pessoais e que, principalmente, são socialmente irresponsáveis. Espero que, no futuro, esta seja uma atitude afirmativa mais comum.
No momento em que a sociedade aprender a dizer não às empresas irresponsáveis ou que tenham apenas responsabilidade discursiva podem ter certeza que elas imediatamente serão mais comprometidas com a sociedade ou não irão sobreviver em um mercado competitivo.
Para que os acionistas e executivos façam as suas empresas mais responsáveis, nós, da sociedade civil, devemos fazer a nossa parte aprendendo a dizer não.
Por: Henrique Cortez, ambientalista e coordenador do Portal EcoDebate.
Fonte: Correio da Cidadania
31 outubro, 2008 - 10:20h
A organização Fundo Mundial para a Natureza (WWF) acaba de publicar o informe da Pegada hídrica ou hidrológica do Reino Unido. Foi apresentado na Semana Mundial da Água em Estocolmo celebrado de forma recente, numa sessão na qual participaram o professor Anthony Allan (Stockholm Water Prize 2008), o professor Arjen Hoekstra (pai intelectual do concepto “pegada hidrológica”) e eu, representando a uma equipe dirigida pelo professor Ramón Llamas que, com financiamento da Fundación Marcelino Botín, estamos realizando um estudo sobre a pegada na Espanha e sobre o comércio da água virtual.
Como era de se esperar, o informe WWF-UK demonstra que 75% da pegada hídrica de um britânico estão associados com a sua dieta, o que come para se alimentar, e somente 3% corresponde ao consumo de água no seu lar. Todo cidadão europeu responde a este mesmo padrão, com muito poucas variantes.
Primeira lição: se queremos poupar água no nosso país ou na nossa bacia hidrográfica, mudemos o nosso tipo de alimentação. Somente em nosso país ou em outras bacias? Nada mais longe para um britânico, pois duas terceiras partes da sua “pegada hídrica” são sofridas fora das adoráveis ilhas britânicas. Daí que o informe do WWF insista em avaliar a “pegada externa”, a sua procedência e em que produtos está comprometida. Cada britânico tem, aproximadamente, uma “pegada externa” de 757 mil litros ao ano associada à sua alimentação.
Os números resultam assustadores, mas não esqueçamos que as plantas necessitam entre 50 e 100 moléculas de água para fixar uma molécula de CO2 mediante a fotossíntese. Portanto, como onívoros que somos a nossa “pegada hídrica alimentária” sempre será elevada. Além do mais, a água é um recurso renovável, não como o estoque dos Gases de Efeito Estufa na atmosfera, que resulta tão difícil de diminuir, ou como o petróleo, que é, em principio, esgotável.
No transcurso da sessão de Estocolmo, suscitou-se uma discussão muito relevante e relacionada com o post de Carlos Romero em www.soitu.es; ele se perguntava se a globalização é boa para o meio natural. A pergunta procedia duma pessoa do Quênia, a qual refletia sobre o risco de concluir negativamente sobre a idéia da “pegada externa” de um país ou duma pessoa. E o fazia com o exemplo das importantes exportações de flores do Quênia para Europa, contribuindo a aumentar a “pegada externa” dos importadores e dos consumidores de flores.
Água virtual e água verde
O comércio dos produtos agroalimentares é, com grande diferença, aquele que registra mais “água virtual”. A pergunta que se deve colocar é se o comércio somente recoloca a “pegada hidrológica” entre os países, ou realmente a aumenta. Inclusive, no caso em que a aumente globalmente, é preciso saber se a aumenta em países onde a “água verde” (água de chuva armazenada na parte não saturada do solo) aporta o componente mais importante ou, pelo contrário, é “água azul” (aquela captada das fontes superficiais ou subterrâneas). É necessário levar em consideração que a diferença cromática das águas é meramente semântica, porque na realidade onde a “água verde” possa se infiltrar nas camadas subterrâneas alimentará os fluxos subterrâneos e, possivelmente superficiais, em outras áreas.
Para entender melhor, não é a mesma coisa um bovino trazido do Uruguai, Irlanda ou da Argentina, cujo animal foi sido engordado em regime de pastoreio, em grandes extensões de pradarias não irrigadas, do que um bovino engordado numa cevadeira intensiva de Huesca, na Espanha. Concluindo, o incremento da “pegada hídrica externa” de um país não tem necessariamente que contribuir para um maior incremento do consumo dos recursos hídricos escassos em alguma parte do mundo. Tampouco queremos concluir com uma mensagem negativa sobre a magnitude da “pegada hídrica” duma pessoa; importa muito mais se ela aumenta ou diminui e que impactos e onde são sentidos, no caso de que eles a aumentem.
A grande maioria das pessoas não pode comer como um norte-americano; não porque não tenha capacidade de compra (que evidentemente, não a tem ) mas porque não há água no mundo que possa sustentar a sua dieta.
Em todo caso, os estudos sugerem que, em termos da “pegada hídrica”, é melhor o chá do que o café, a carne de frango do que a de vaca, e, finalmente, a dieta vegetariana. Em poucos anos todos poderão decidir, de maneira consciente, pois muitas empresas como a Nestlé e a Coca-Cola já estão aceitando a idéia de informar a “pegada hídrica” nos seus produtos.
Conceitos como o da “pegada hidrológica” ou comércio da “água virtual” oferecem uma idéia mais aproximada do uso que fazemos deste valioso recurso. E não que se trata somente daquela que sai das torneiras: para produzir um litro de azeite são necessários 350 litros de água, para uma xícara de chá 80 e para um quilo de carne 15 mil.
A “pegada hidrológica” é um termo recentemente acunhado que provém de um conceito prévio denominado “pegada ecológica”. Como tantos outros, o conceito de “pegada” não é mais do que um indicador do impacto ambiental que produz o consumo de uma pessoa, uma cidade, um país inteiro ou o mundo globalmente. No caso do consumo de uma pessoa, a sua “pegada ecológica” é medida em hectares, indicando quanta superfície de terra demanda seu estilo de vida. O cálculo da “pegada ecológica” traz consigo a necessidade de converter todos os bens e serviços consumidos em unidades de superfície.
Se a pegada de todos os habitantes de um país é maior do que a sua superfície, concluímos que seus habitantes devem estar “exportando” para outros países uma parte de seus impactos ecológicos.
A “pegada hidrológica” se centra exclusivamente em avaliar as necessidades diretas e indiretas de água para sustentar o estilo de vida de uma pessoa, cidade, região ou país. Como é lógico, o avaliamos em unidades de volume por pessoa, e mais concretamente, em metros cúbicos ou milhares de litros por pessoa/ano. Com ajuda da Fundação Marcelino Botín, um grupo de professores e jovens investigadores da Universidade Politécnica de Madri calculamos a “pegada hidrológica” espanhola, definindo-a em 50 bilhões de metros cúbicos. O que significa que cada residente na Espanha necessita em média algo mais de um milhão de litros de água ao ano. Para colocar um par de referências a este número, um norte-americano necessita de uns 2,5 milhões e um chinês 700 mil litros.
Se compararmos essas necessidades com os recursos hídricos que dispomos a cada ano, concluiremos que os espanhóis têm um resultado negativo em água. Isto é, a diferença entre o volume de água que “importamos” de outros países e o que “exportamos” equivale a 16 bilhões de metros cúbicos por ano (uns 350 mil litros por pessoa). Do pouco mais de um milhão de litros que cada espanhol necessita a cada ano, 90% os emprega em se alimentar, e 10% nos bens e serviços que consome.
Para se obter estes números, é preciso calcular a água que se gasta em produzir todos os bens da economia. Para produzir um litro de azeite de oliva se necessitam 350 litros de água, para uma xícara de chá 80 e para um quilo de carne de vaca 15 mil. Portanto, a dieta duma pessoa tem uma enorme importância na magnitude de sua “pegada hidrológica”, a qual se mostra evidente no maior consumo de proteína de carne de um norte-americano que é maior do que a de um chinês.
Agora, e para nos centrar somente na alimentação, se fabricar cada produto exige um volume de água determinado (por certo, bastante parecido em qualquer lugar do mundo) pode-se usar o comércio internacional agroalimentar para “comprar” água.
Precisamente, essa compra de água, mediante o que se convencionou denominar “comércio da água virtual” é o que explica que os espanhóis tenham um balanço negativo de água. Assim, importamos muitíssimo mais água em forma de cereais e pensos, fundamentalmente para alimentar as nossas fazendas de gado, do que a que exportamos em forma de frutas e hortaliças. Para visualizar a importância deste comércio da água virtual para um espanhol, basta pensar que se não fosse diferente teríamos que comer, como máximo, metade da carne que comemos atualmente.
A importância da “pegada hidrológica” e a do comércio da água virtual se relaciona, também, com a gestão da água, e em poucos anos se conseguiu que se questionem os índices de escassez deste recurso do qual carecem os países áridos ou semi-áridos, como a Espanha. Se produzir um quilo de tomates exige 200 litros de água e um quilo de trigo 600 litros, poupamos água produzindo tomates e trocando-os por trigo produzido em outro país. Mas, o que é bom para um país não necessariamente é bom para o mundo; pois já na sua etapa final, a “pegada” de um bom filé de carne é muito significativa, e em nenhum lugar deveria ficar “impressa”.
Por: Alberto Garrido , Professor de Economia e Ciências Sociais Agrárias da Universidade Politécnica de Madri
Fonte Revista ECO•21 nº 143
31 outubro, 2008 - 10:14h
Recentemente, o governo do Rio de Janeiro anunciou que priorizará investimentos em um sistema conhecido como saneamento de tempo seco. Apresentou a proposta como alternativa à coleta e tratamento convencional de esgotos domésticos, a ligação dos esgotos domésticos, formando a rede coletora, com os coletores-tronco e interceptores, com destino final das águas servidas nas estações de tratamento, com melhoria de sua qualidade posteriormente devolvida ao ambiente. A proposta apresentada tem como objetivo permitir o lançamento do esgoto in natura em canais e riachos para depois bombear a água poluída para pequenas estações de tratamento. Isto é, pretende manter o uso dos corpos de água como receptores e rede coletora de esgoto. Um horror mesmo.
Há mais de quinhentos anos esse procedimento é empregado no país, com as conseqüências mais do que conhecidas e danosas, compreendendo grave comprometimento na qualidade das águas superficiais, como problemas de doenças de veiculação hídrica, eutrofização, crescimento de algas potencialmente tóxicas, entre outros.
Em São Paulo a situação não é diferente. O lançamento em rios e riachos do esgoto in natura de cerca de 10.000.000 habitantes ainda é empregado como procedimento de afastamento das águas servidas. Esta forma de uso deve ser abolida, pois não só degrada o corpo de água, mas também como procedimento de afastamento não é adequado, principalmente em grandes centros urbanos densamente ocupados.
Para as represas Billings e Guarapiranga, a aplicação direta de peróxido de hidrogênio ou sulfato de cobre na massa de água é a principal ação de controle do crescimento de algas, em particular as potencialmente tóxicas, as cianobactérias, que com suas toxinas podem causar a morte de seres humanos. Pior ainda, este procedimento de controle já é empregado na represa Paiva Castro, que abastece cerca de 10 milhões de habitantes da grande São Paulo.
Assim, a manutenção das atuais políticas públicas no uso e ocupação dos espaços, que seguem inalteradas, não deixa outra alternativa: no futuro, o Paiva Castro será como a Guarapiranga. Como tudo demonstra que não haverá mudanças nas intenções e interesses de nossos dirigentes de plantão, seja em São Paulo ou no Rio de Janeiro, nem no longo prazo, então de onde virá a água para bebermos? Qual será a qualidade da água empregada no abastecimento público? Qual será o custo final da água servida à população?
A solução é tratar o problema na fonte, coletando todo o esgoto gerado em sistema próprio e de fato afastá-lo, não permitindo o lançamento no manancial mais próximo. Temos também que disciplinar os usos e ocupações dos espaços, definindo prioridades, com reflexos na melhoria da qualidade das águas.
No entanto, vivemos eternamente no improviso cuidando unicamente dos efeitos, com infra-estrutura precária e políticas públicas ineficientes, e, pior, sem perspectiva de melhora. É como se a nossa dor de dente fosse tratada unicamente com anestésico, sem nunca ter o problema resolvido na base, ter o dente tratado em definitivo e monitorado visando prevenir novos problemas. A título de prioridade, continuamos com os procedimentos paliativos empregados como definitivos. Que horror.
Por:Marcelo Pompeo, professor do departamento de Ecologia da USP.
Fonte: Correio da Cidadania
31 outubro, 2008 - 10:11h
Imagine se, como no livro Revolução dos Bichos, de George Orwell, os animais do planeta tivessem senso crítico e opinião, ou, como em Senhor dos Anéis, obra de J. R. R. Tolkien, as árvores fossem capazes de fazer reuniões para decidir o que é melhor para sua floresta. Teríamos hoje a maior parte dos seres vivos do planeta a comemorar as possíveis conseqüências ambientais positivas da crise.
Num cenário recessivo, seriam grandes as chances de redução nas emissões de carbono, no consumo de madeira nativa e na demanda por novas áreas de floresta para criação de gado e plantio de soja. Cairia também o crescimento do consumo de energia elétrica e, assim, arrefeceria a pressão para a construção de novas hidrelétricas em áreas de floresta virgem; até mesmo as linhas de financiamento para obras de grande porte escasseariam. A pesca industrial também seria reduzida, o que daria um respiro para as espécies de peixes marinhos ameaçados de extinção. Com a queda da produção e do consumo, seria menor a quantidade de mercadorias transportadas entre as cidades e países, com menos caminhões queimando o óleo diesel de quinta qualidade que polui as estradas e cidades brasileiras com seus índices indecentes de emissão de enxofre. Uma recessão faria diminuir o número de celulares (e suas baterias venenosas) sendo jogados no lixo a cada minuto. Com a queda nas vendas de automóveis e demais produtos industrializados que utilizam minério de ferro e outros minerais em sua produção, as reservas desses recursos naturais (que são finitas, não custa relembrar) e a natureza ao redor delas seriam poupadas. Com retração da economia, as pessoas consumiriam menos e cairia a produção de lixo, tornando menos urgente encontrar soluções para a superlotação dos aterros sanitários e dos famigerados lixões.
Enquanto arrancamos os cabelos preocupados o crescimento do desemprego, nossos bichos e árvores falantes celebrariam as notícias deste outubro de 2008, segundo as quais a Petrobras reduziu a previsão de investimentos e ampliou os prazos para a exploração do petróleo na área do pré-sal. Mais: o governo Lula prevê cortes nos investimentos em infra-estrutura e nas obras do PAC, algumas delas verdadeiros desastres ambientais programados.
Há ambientalistas que argumentam que a crise pode de alguma forma ser prejudicial, ao inibir investimentos e decisões governamentais ambientalmente positivas. Os debates travados na reunião de cúpula da União Européia, realizada este mês, reforçam a tese: nove integrantes do bloco, liderados pela Itália de Berlusconi, usaram a crise econômica como razão para colocarem-se contra um plano já acordado meses atrás, que prevê redução em 20% da emissão de gases que provocam o efeito estufa até 2020. Para Berlusconi, "as empresas italianas não estão em condições de arcar com as despesas para atingir essas metas".
Mas o histórico recente de desrespeito a acordos de emissão de gases mostra que esse caminho não merece ser levado a sério por quem realmente se preocupa com a questão ambiental. O famoso Protocolo de Kyoto, por exemplo, assinado em 1997, morreu de desgosto por ter sido sistematicamente desrespeitado pelos governos signatários - e isso apesar de que suas metas de redução eram consideradas insuficientes para conter os efeitos das emissões.
A provável redução no direcionamento de recursos para conservação é outra preocupação válida. Mas arrisco afirmar que os benefícios da retração na degradação ambiental em caso de recessão superariam em muito eventuais problemas com corte de verbas para projetos de proteção e conservação.
Seja nos próximos meses ou daqui a cinco, 15 ou 100 anos, a derrocada desse sistema econômico é inevitável, uma vez que se baseia em premissas insanas e insustentáveis, como a de que os recursos naturais que o alimentam têm suprimento infinito e que o crescimento econômico constante e ilimitado é possível. Em algum momento, a escassez de recursos em geral, em especial os minerais (muitos com data marcada para acabar, como destacado neste espaço no artigo O preço do índio), será um dos fatores que vão inviabilizar a perpetuação do sistema linear de extração-produção-consumo no qual estamos mergulhados e nos afundando. Mas tenho esperança de que não precisaremos secar as fontes para interromper essa espiral de insanidade.
Apesar de saber que toda a humanidade, incluindo eu, minha família e amigos, sofrerão na pele as duras conseqüências de um mergulho recessivo da economia, tendo a ficar do lado dos bichos e vegetais encantados e torcer para que o remédio amargo seja tomado logo desta vez, e o quanto antes. Porque, dada a velocidade que a destruição assumiu nas últimas décadas, apesar de ainda termos hoje grandes pedaços de floresta relativamente intactos, muitos peixes no mar e alguns rios limpos e livres de represas, corremos o risco de perder tudo isso em poucos anos.
As conseqüências das barbeiragens protagonizadas por homens elegantes que usam gravatas de milhares de dólares mostram que talvez não seja necessário esperar que as geleiras derretam, o sertão vire mar nem a Amazônia transforme-se num deserto para que o caos se instale entre nós. Melhor que ele venha logo enquanto ainda temos grande parte da biodiversidade do mundo intacta. E tomara que aprendamos alguma coisa de útil com sua chegada.
Por: Danilo Pretti Di Giorgi, jornalista.
Fonte: Correio da Cidadania
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