Arquivos para setembro, 2008
30 setembro, 2008 - 16:30h
Mulheres da comunidade do Morro Santana, em Porto Alegre (RS), utilizam fibras de garrafas pet como matéria-prima para a fabricação de edredons. A iniciativa, de acordo com a prefeitura, conta com a participação de 15 mulheres que executam o trabalho desde 23 de julho. Os resultados já motivam o grupo a iniciar a produção de outros itens, como almofadas, travesseiros e bolsas.
"São fabricados objetos úteis e que serão vendidos por um preço bastante acessível, contribuindo para a geração de renda à comunidade, que é o objetivo principal da iniciativa", explica Robson Rosa Lhul, agente de governança da região leste de Porto Alegre.
A fabricação de fios têxteis (fios ecológicos) começa com a lavagem das garrafas. Após serem processadas, as fibras são extraídas. De acordo com os organizadores do projeto, elas são macias e têm um poder de aquecimento tão grande quanto a lã natural.
O projeto é resultado de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Coordenação Política e Governança Local (SMGL), o Comitê de entidades no combate à fome e pela vida (COEP/RS), o Banco Regional do Extremo Sul (BRDE), o Banco do Vestuário da Fiergs, a Transportadora Giulian e a Maxitex Indústria Têxtil Ltda.
Fonte: G1
30 setembro, 2008 - 16:27h
Pelo sétimo ano consecutivo, em 2007, o Brasil se manteve na liderança mundial da reciclagem de embalagens, informou a Associação Brasileira de Alumínio (Abal) e a Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas). De acordo com o comunicado distribuído pelas duas entidades, o País reciclou, no ano passado, 96,5% do total de latas de alumínio para bebidas comercializadas no mercado interno.
A Abal e a Abralatas informaram também que esse porcentual equivale à reciclagem de 160,6 mil toneladas de sucata, o que corresponde a 11,9 bilhões de latas - ou 32,6 milhões de unidades por dia, ou, ainda, 1,4 milhão por hora. As entidades informam ainda que, em 2007, o volume de latas coletado no País foi 15,5% maior que o de 2006. As vendas do ano passado, na comparação com as do ano anterior, aumentaram 13%.
Por: Neri Vitor Eich
Fonte: Estadão Online
30 setembro, 2008 - 16:25h
Uma pesquisa do Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares) usou raios gama para reciclar óleo lubrificante usado, acelerando sua recuperação e reduzindo impactos ambientais do processo.
Segundo levantamento da pesquisa, atualmente existem cerca de dez empresas que reciclam de forma convencional esse tipo de óleo no Brasil. Os processos requerem reagentes químicos e geram rejeitos.
O uso da radiação gama, gerada por fonte de cobalto-60, elimina etapas dos processos convencionais e não utiliza reagentes químicos.
O óleo lubrificante dos veículos não é consumido totalmente quando está nos automóveis. Seus resíduos são altamente tóxicos e perigosos, por isso é proibido o seu descarte na natureza.
Os estudos mais recentes mostram que o Brasil produz cerca de 1 bilhão de litros de óleo lubrificante por ano. Desse volume, aproximadamente 650 milhões de litros são queimados ou incorporados ao processo. Dos 350 milhões restantes, 240 milhões são reciclados. Não há dados sobre o que ocorre com os outros 110 milhões de litros - não se sabe se são queimados ou descartados no solo ou em rios, por exemplo.
Segundo o pesquisador, Marcos A. Scapin, que desenvolveu a nova técnica em seu doutorado, o processo usa apenas água e radiação.
De acordo com ele, o método poderá ser explorado industrialmente, mas ainda faltam ajustes. "A pesquisa aponta para um tratamento promissor, principalmente por ser uma tecnologia limpa. Mas fizemos numa escala piloto. Há necessidade de otimizar o processo", disse.
Deve-se tentar, por exemplo, usar uma dose menor de radiação –quanto maior a dose, mais caro o processo. Outra questão importante ainda não observada são os gases produzidos no processo. "Em grande escala, os gases tóxicos e não tóxicos precisam ser analisados."
Menos enxofre - Scapin assegura que não há geração de nenhum tipo de resíduo radioativo. "Quanto aos elementos inorgânicos, estes ficam retidos na água, que após tratamento de remoção é utilizada novamente no processo."
Um dos pontos positivos do processo com radiação é que níveis significativos de remoção de elementos inorgânicos são alcançados. Houve remoção, por exemplo, de 68% do enxofre - ou 10% a mais do que ocorre no processo convencional. O enxofre é indesejável nos derivados de petróleo pois, entre outros fatores, colabora com a ocorrência de chuva ácida.
O processo proposto não permite reutilizar o óleo tratado nos automóveis, porém há uma possibilidade de reutilizá-lo principalmente como combustível, já que uma parte dos compostos que se formam são classificados como altamente inflamáveis.
Os estudos preliminares da pesquisa de Scapin já foram publicados no periódico científico "Radiation Physics and Chemistry".
Por: Afra Balazina
Fonte: Folha Online
30 setembro, 2008 - 16:22h
Um projeto de âmbito global começou a procurar por plantas que tenham características que as ajudem a resistir a mudanças climáticas para, assim, desenvolver colheitas capazes de suportar o aquecimento global.
Coordenado pela organização Global Crop Diversity Trust, o projeto de US$ 1,5 milhão está realizando buscas em bancos nacionais de sementes para encontrar variedades "à prova do clima" de vários produtos, entre eles milho e arroz.
A equipe busca sementes que sejam resistentes a eventos extremos, como enchentes, secas ou mudanças constantes de temperatura.
Os pesquisadores esperam que essas variedades ajudem a proteger a produção de alimentos do impacto das mudanças climáticas.
Segundo a Global Crop Diversity Trust, a falta de material preciso e disponível prejudica os esforços de produtores para identificar o que pode ser usado para desenvolver variedades que possam resistir a condições futuras.
"Nossas plantações devem produzir mais alimento, na mesma quantidade de terra e com menos água", disse o diretor organização, Cary Fowler.
"Não há um cenário possível no qual nós possamos continuar a produzir os alimentos que precisamos sem diversidade", afirmou.
Acesso aberto - O projeto representa o mais recente estágio de um plano mais amplo da organização para conservar a variedade de plantas produzidas ao redor do mundo.
Nos últimos anos, a organização realizou uma série de encontros com especialistas na produção de alimentos básicos como trigo, arroz, lentilha e milho, com o objetivo de identificar a melhor estratégia de conservação para cada produto.
"Esses especialistas nos ajudaram a identificar quais são as mais importantes coleções de sementes em termos de diversidade genética", disse Fowler à BBC.
A informação ajudou a organização a estabelecer quais características são necessárias para que as espécies tenham as melhores chances de sobreviver no futuro.
Fowler disse que um exemplo é quando uma planta mostra um bom nível de resistência ao calor durante o período de florescimento - um estágio no qual a planta passa por mais estresse -, mas para o qual havia pouca informação.
Banco de dados - Nos próximos 24 meses, os pesquisadores esperam construir um perfil completo das várias características "resistentes ao clima" e em quais plantas elas podem ser encontradas.
"Depois disso, teremos de usar as variedades que têm essas características em programas de produção", afirmou Fowler.
Ele disse que os dados estarão disponíveis para todos - organizações públicas e privadas - em um banco de dados online.
"Os produtores poderão acessar esse banco de dados e colocar o critério de busca, daí eles receberão os detalhes de amostras que batem com as suas exigências, como resistência à seca e ao calor", afirmou.
Desenvolver plantas que produzirão mais alimentos e poderão lidar melhor com as mudanças climáticas é um caminho também seguido pelo setor de biotecnologia e grupos a favor da produção de alimentos modificados geneticamente.
Questionado sobre a possibilidade de o projeto ser usado por esses grupos, Fowler afirmou que ninguém sabe exatamente o que será necessário em 100 ou 500 anos em termos de produção agrícola e que a melhor alternativa agora é manter todas as opções possíveis.
Fonte: Folha Online
30 setembro, 2008 - 16:19h
Imagens de satélite da Nasa mostram que, durante um intervalo de quatro semanas em agosto deste ano, o gelo sobre o Oceano Ártico derreteu-se mais depressa do que em qualquer outra época registrada. A perda total de gelo deste ano foi a segunda maior desde o início das observações por satélite. O recorde ocorreu em 2007.
A cada ano, no verão boreal, o gelo sobre o mar no Ártico se derrete, atingindo o menor nível anual. O gelo que permanece, ou "gelo perene", tem sobrevivido ano após ano e contém gelo antigo e mais espesso. A área total de oceano coberta por gelo, incluindo sazonal e perene, vem sofrendo nos últimos anos, á medida que o derretimento acelera. No ritmo atual, cientistas acreditam que todo o gelo ártico poderá desaparecer neste século.
"Não esperava que a cobertura de gelo ao final do verão deste ano ficasse tão ruim quanto a de 2007, porque o gelo do inverno foi quase normal", disse o pesquisador Joey Comiso, do Centro de Vôo Espacial Goddard, da Nasa.
"Vimos um bocado de resfriamento no Ártico que acreditamos estar associado ao La Niña. O gelo sobre o mar no Canadá recuperou-se e até se expandiu no Estreito de Bering e BA Baía Baffin. No geral, foi um bom sinal de que este ano não será tão ruim quanto o ano passado", afirmou.
Mas o mínimo de gelo de 2008 só ficou atrás do de 2007, de acordo com nota conjunta da Nasa e do Centro de Dados de gelo e Neve da Universidade de Colorado. Em 12 de setembro de 2008, a extensão do gelo era de 4,5 milhões de quilômetros quadrados, abaixo da média mínima entre 1979 e 2000.
O quase-recorde de 2008 foi impulsionado, entre outros fatores, por um período de um mês que assistiu à mais rápida taxa de perda de gelo já registrada. De 1º a 31 de agosto, dados da Nasa mostram que a área coberta de gelo caiu ao ritmo de quase 85 mil quilômetros quadrados ao dia, ante a taxa diária para o mês de 63 mil, em 2007.
Fonte: Estadão Online
30 setembro, 2008 - 16:16h
Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nesta segunda-feira (29) revelam que o ritmo de desmatamento da Amazônia subiu 133,6% em agosto. O cálculo, feito por meio de imagens de satélites, indica que nesse mês foram destruídos 756,7 km² quilômetros quadrados de floresta, área equivalente à metade do município de São Paulo. Em julho, o instituto registrou 323,9 km² de florestas derrubadas.
A medição foi realizada pelo sistema Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real), que identifica apenas as áreas desmatadas ou degradadas que tenham área maior que 2.500 m². Devido à cobertura de nuvens, nem todos os desmatamentos são detectados.
Em comparação ao mesmo mês do ano anterior, o crescimento do ritmo de desmatamento é ainda maior, atingindo 228,7%. Em agosto de 2007, o Inpe registrou 230,2 km² de áreas devastadas.
Os focos de desmatamento já podem ser vistos no mapa interativo Globo Amazônia, que mostra os pontos de destruição da floresta e possibilita aos internautas protestar contra queimadas e desmatamentos.
Segundo o Inpe, o Pará continua sendo o estado que mais desmata. De 30 de julho a 30 de agosto, foram registrados 435,3 km² de desmatamentos nessa unidade da federação. Em segundo lugar ficou o Mato Grosso, com 229,2 km², seguido por Rondônia, onde a floresta perdeu 29,9 km².
Apesar de registrar grande diferença em relação ao mês de julho, o desmatamento registrado em agosto mantém a média dos últimos 12 meses, período em que 8.673 km² de florestas foram derrubados na Amazônia.
Em comparação com os 12 meses anteriores, o desmatamento cresceu 83%, pois entre setembro de 2006 a agosto de 2007 os satélites registraram 4.731 km² de área desmatada.
Nuvens - Devido à cobertura de nuvens em agosto, apenas 74% da Amazônia Legal pôde ser vista nas imagens analisadas. Ficaram encobertos 99% do território do Amapá e 77% de Roraima. O Mato Grosso ficou livre das nuvens nesse mês, enquanto o Pará teve 24% de sua área encoberta.
O Inpe aponta que a maior parte do desmatamento detectado pode ser caracterizado como corte raso (67,5%) ou degradação florestal de intensidade alta (17%). Nessas duas classificações de derrubada da mata, resta pouca cobertura vegetal sobre o solo. Fonte: G1
30 setembro, 2008 - 16:13h
A diretora-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Margareth Chan, prometeu no domingo (28) ao ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que os dados sobre malária no Brasil serão revistos e corrigidos.
De acordo com informações da assessoria de imprensa do ministério, Temporão reclamou da metodologia utilizada pela OMS ao divulgar dados sobre malária no último dia 18.
A organização, ligada à ONU, divulgou que em 2006 o Brasil registrou 1,4 milhão de casos da doença. Temporão alega que foram notificados cerca de 550 mil.
Ainda segundo informações do ministério, representantes da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) informaram a Temporão que os dados da OMS sobre malária estavam superestimados em vários países.
O ministro da Saúde assumiu a presidência do conselho-diretor da Opas, ligada à OMS, nesta segunda-feira (29).
Por: Mariana Jungmann
Fonte: Agência Brasil
30 setembro, 2008 - 16:11h
Além de tentar estabelecer um valor para a mata, o economista André Steffens Moraes também estima o quanto o ganho adicional de R$ 15,50 por hectare - a diferença entre a pecuária de "seco", que desmata, e a de "molhado" - se traduz em prejuízos decorrentes da perda do habitat pantaneiro.
Para isso, ele recorreu a uma série de análises de custo-benefício e a estudos anteriores sobre quanto as pessoas estariam dispostas a pagar pela simples existência do Pantanal. De longe o serviço que mais vale é a oferta de água, a verdadeira commodity do Pantanal. O fornecimento garantido pela vegetação e a regulação de cheias e secas vale mais de US$ 3.000 por hectare ao ano.
Benefícios globais, como armazenagem de carbono e regulação do clima, foram também calculados, mas de maneira menos precisa, já que há poucos estudos sobre o ciclo do carbono naquele bioma. Somados, os benefícios locais e globais chegam a US$ 8.100. "São US$ 8.100 contra US$ 30. Uma loucura, né?"
No entanto, quando se agrega a variável um tanto exótica do "valor de existência", a loucura fica ainda maior: um hectare de Pantanal preservado chega a quase US$ 17.500, e o valor total do bioma, a incríveis US$ 242 bilhões por ano.
Moraes, porém, não sugere que os fazendeiros deixem de desmatar em nome desse suposto valor de existência - um dinheiro que, afinal, existe só em teoria. "Todo mundo se beneficia, mas quem paga o custo da conservação é o pecuarista."
A proposta do pesquisador é que a sociedade subsidie os Zés Leôncios, pagando para que eles não desmatem. Uma forma de fazer isso seria dar crédito mais barato a pecuaristas que mantêm suas áreas sem derrubada. Outra seria cobrar dos hotéis pantaneiros uma taxa para financiar pecuaristas.
Por: Claudio Angelo
Fonte: Folha Online
30 setembro, 2008 - 16:09h
Galos apreendidos em 2006 em rinhas de Cáceres (MT) são mantidos no zoológico da Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá. De acordo com o biólogo Itamar Assumpção, 35 animais foram apreendidos e apenas nove sobreviveram e recebem cuidados no local.
Muitos deles ainda trazem no corpo as marcas da violência que sofreram. "Os animais não nascem para brigar. Eles recebem alimentação adequada, mas infelizmente ficam em pequenas gaiolas. Seria mais aconselhado terem um espaço maior", afirma o biólogo.
Os 26 galos que morreram estão na câmara fria do zoológico da UFMT. "Como a situação das rinhas aguarda uma posição da Justiça, estamos congelando os animais e se o juiz autorizar vamos utilizar como alimento para outros animais", diz o biólogo.
Fonte: G1
30 setembro, 2008 - 16:07h
Os seis maiores desmatadores na Lista dos 100 Maiores Desmatadores do País divulgada pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, nesta segunda-feira (29) são assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Mato Grosso. Juntos eles desmataram 220 mil hectares. O Estado continua sendo o maior desmatador do País, com 49 dos maiores devastadores do Brasil derrubando 357 mil hectares dos 520 mil hectares derrubados em 4 anos por todos os listados.
Cada um dos 100 maiores desmatadores do país são responsáveis pela devastação de uma área média de 1,6 mil hectares. Juntos, eles desmatam o equivalente a cerca de 160 mil campos de futebol, segundo informou nesta segunda-feira (29) o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc.
Entre as propriedades particulares, o maior desmatador é o produtor Léo Andrade Gomes. De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), ele é responsável por 12,5 mil hectares de destruição de floresta nativa sem autorização dos órgãos ambientais no município paraense de Santa Maria das Barreiras. O nome do produtor também aparece na lista pela destruição de mais 2,6 mil hectares da reserva legal de outra propriedade, em Santana do Araguaia, também no Pará.
Segundo o estudo, de 100 acusados de devastação apenas dez vão a julgamento e um é condenado. O ministro afirmou, entretanto, que pretende não apenas denunciar os suspeitos, mas garantir a punição dos criminosos.
"Nós criamos uma força-tarefa com a Advocacia Geral da União, a AGU, e o Ministério Público Federal para levar esse grupo para o banco dos réus para pegar uma prisão pesada, de preferência plantando muitas árvores até o resto da vida, para pagar pelos crimes ambientais que cometeram".
O ministro informou que todo o material apreendido pela força-tarefa, como grãos, toras e gado, será leiloado.
Minc fez as declarações durante a abertura da 12ª Semana de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Amazônia - O desmatamento da Amazônia mais que dobrou em agosto na comparação com o mês anterior, somando 756 quilômetros quadrados, área maior que o território de Cingapura, por exemplo, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados nesta segunda-feira, 29. No acumulado de 2008, a área de floresta perdida soma 5.681 quilômetros quadrados, de acordo com o instituto. Cingapura tem área total de 641 quilômetros quadrados.
Em agosto, o Pará foi mais uma vez o Estado com maior índice de desmatamento da Amazônia, destruindo 435,3 quilômetros quadrados de floresta, seguido pelo Mato Grosso, com 229,2 quilômetros quadrados devastados. O Inpe informou que 74% da Amazônia pôde ser vista por satélite, porém o Estado do Amapá ficou praticamente todo encoberto por nuvens (99 por cento), e em Roraima 77% do território não pode ser visto.
Quando comparado ao desmatamento registrado em agosto de 2007, o aumento da destruição da floresta foi de 230 quilômetros quadrados. Nos 12 meses de agosto de 2007 até o mês passado, a Amazônia perdeu 8.673 quilômetros quadrados, informou o Inpe. Só em abril de 2008, 1.124 quilômetros quadrados de floresta foram desmatados.
Recentemente, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, comemorou a queda do desmatamento em julho, quando o desmate atingiu 324 quilômetros quadrados. Na época, o ministro atribuiu a queda ao aumento da fiscalização e a acordos fechados entre o ministério e setores do agronegócio. Na semana passada Minc anunciou que vai divulgar os nomes dos 100 maiores devastadores da floresta.
Fonte: Estadão Online
30 setembro, 2008 - 16:05h
A União Européia (UE) deve continuar seus esforços para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa, mas, ao mesmo tempo, tem que se preparar para as conseqüências inevitáveis do aquecimento global.
Essa é a principal conclusão de um relatório elaborado pela Agência Européia do Ambiente, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Centro Comum de Pesquisa (JRC, em inglês) da UE, divulgado pela agência "Belga".
O estudo lembra que, devido ao aumento das emissões poluentes, a temperatura média da Terra aumentou em 0,8°C em comparação a antes da Revolução Industrial, uma alta sentida especialmente na Europa.
Esse aumento da temperatura já provocou o derretimento de geleiras, a redução em cerca de 20% do volume de chuva em algumas regiões mediterrâneas nos últimos 100 anos, migrações animais rumo ao norte, inundações e erosão do solo, entre outras mudanças.
O relatório adverte que, se esses efeitos se agravarem, trarão sérias conseqüências tanto para a saúde humana quanto em diferentes setores econômicos, como o energético, de transportes, agricultura e turismo.
Segundo o documento, os países da UE deveriam começar a se preparar para enfrentar esse novo cenário, pois, até o momento, os esforços se concentraram na gestão do risco de inundações.
As regiões européias mais afetadas pelo aquecimento serão, segundo este estudo, as regiões montanhosas, as áreas litorâneas, a bacia mediterrânea e o Ártico, onde a superfície da calota polar foi reduzida à metade entre 1950 e 2007.
Entre as principais conseqüências para a saúde humana, o relatório afirma que o aquecimento reduzirá a qualidade do ar e favorecerá a chegada à Europa de insetos transmissores de doenças atualmente limitadas aos trópicos.
Fonte: Yahoo!
30 setembro, 2008 - 16:01h
Apesar de todas as controvérsias quanto ao projeto de construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, o presidente da Eletronorte, JorgePalmeira, parece ignorar as dificuldades. Pelo menos é o que se pode
concluir de suas recentes declarações à imprensa paraense.
Segundo ele, até o final de agosto serão concluídos os estudos de viabilidade da hidrelétrica da usina, já no primeiro semestre de 2009 serãoconcluídos todos os estudos ambientais e de viabilidade econômica doempreendimento e (independente de qualquer resultado que estes "estudos"possam gerar) as obras deverão começar no início de 2010, com uma previsãode cinco anos para entrada em funcionamento da usina.
As previsões do presidente da Eletronorte são, evidentemente, bravatas. O cronograma por ele apresentado só seria possível se não houvesseresistências à obra, o que não é o caso. Em defesa do rio, além dos índios edos ambientalistas, há o Ministério Público Federal, que deve questionar os estudos e o processo de licitação, pois as empresas que estão fazendo osestudos técnicos são as mesmas que participarão da concorrência para a construção das barragens. Eu acredito que esta usina não sai por pelo menosoutros dez anos. Mas as armações pelos barramentos do rio, e contra a floresta, seguem em curso acelerado.
Acabo de retornar de uma fascinante viagem pelo Xingu, quando subimos o rio até a Terra Indígena Kayapó, no sul do estado, onde, para a minharealização, fomos levados por um cacique a um grupo de macacos-aranha em um ponto excepcionalmente preservado da cadeia de montanhas florestadas queacompanha o curso do rio.
A viagem ao Xingu foi parte do que seria um curso de campo para nove universitários desenvolvido na base de pesquisas do Pinkaití, na aldeia Aukre, sobre conservação e a vida social dos Kayapó. Sete deles vieram deuniversidades norte-americanas e dois da Universidade de Brasília (tendo sua participação subsidiada pelos alunos norte-americanos).
Lamentavelmente, apesar de nossos esforços de planejamento e organização, osprocedimentos burocráticos para concessão de autorizações para cursos em terras indígenas são extremamente complicados e, na última hora, o cursoteve de ser cancelado. Porém, ainda conseguimos a tempo a autorização da FUNAI para uma visita às aldeias Kokraimoro e Pykararankre, às margens dogrande rio, na porção norte da Terra Kayapó.
Graças a esta visita, pude testemunhar o estado de abandono e as altíssimas taxas de desmatamento no município de São Felix do Xingu, além do limitenorte da terra indígena, notoriamente as mais elevadas de toda a Amazônia brasileira. Se o contato com este dado pelas notícias dos jornais já dói,nada se compara a testemunhar, a partir do leito do rio, a derrubada em andamento das matas que cobrem as serras que acompanham seu curso,devastando assim as molduras daquele cartão postal magnífico. Serras às vezes tão altas que até lembram a Serra do Mar, na costa brasileira e,conseqüentemente, trazem à memória a triste história da devastação da Mata Atlântica durante os ciclos da cana-de-açúcar e do café.
Alguns dos estudantes que acompanhávamos nunca tinham deixado os EstadosUnidos e nenhum dos estrangeiros jamais pisara em um país de terceiro mundo.
Na estrada para São Felix do Xingu, a cidade às margens do rio mais próxima Terra Kayapó, passamos pelo local do famoso massacre dos sem-terra emEldorado dos Carajás. Ali há hoje um museu improvisado em estado de abandonoquase completo e um monumento muito tocante em homenagem aos mortos, erguido pelo MST, que consiste do conjunto de dezenove imensos troncos decastanheiras mortas pelo fogo, reunidos e chumbados no chão com cimento. As árvores queimadas representam cada uma das vítimas do massacre, em umprotesto duplo contra a violência aos seres humanos e à natureza.
Ao longo das estradas do sul do Pará, ficou claro para os visitantes (se ainda houvesse alguma dúvida) que as leis ambientais brasileiras, como a quedetermina a preservação de uma elevada percentagem de matas e cerrados ativos em propriedades rurais, não passam de palavras no papel. Quase nadasobrou da vegetação que havia ali. E apesar de o município de São Felix do
Xingu ter o maior rebanho bovino do Brasil, cruzando a estrada (em asfaltamento) que leva à cidade na beira do rio, avistei pouquíssimosanimais. A explicação que me deram para isso é sinistra: os pastos à beira da estrada já são "velhos", pois foram formados na década de 1980, quando aestrada para o oeste foi aberta. Agora, a maior parte do gado está longe,além da vista de quem corta a estrada principal para São Felix, distante,para o norte e para o sul, em direção à mata. É mais barato desmatar para a formação de um novo pasto do que recuperar uma pastagem velha, que, dentreoutras coisas, exige que sua terra seja arada e revirada.
Foi somente chegando em São Felix, passando do ônibus para o barco que nos levaria rio-acima, e deixando a cidade para trás, que realmente nos sentimosadentrando a Amazônia. O Xingu é um rio maravilhoso. Suas águas verdes, praias, ilhas e corredeiras são uma alegria para os sentidos. Uma pinturaque só não é mais bela porque a moldura de montanhas, ao fundo, sofre um acelerado processo de desmatamento. Nem mais alegre porque o rio, as praias,os pedrais e as corredeiras, que ainda escapam da degradação humana, estão ameaçados pelo avanço das hidrelétricas.
O que sobrou da mata da beira do rio na maior parte do trecho até o início da terra indígena estava ressequido, depauperado pelos madeireiros, ameaçadopelo fogo e semi-abandonado. E o que resta da fauna é intensamente caçado, como pudemos perceber pelo número de disparos ouvidos à noite enquantoacampávamos nas ilhas, viajando Xingu acima. Então, espécies sensíveis à pressão de caça, como os macacos-aranha que veríamos mais tarde emabundância, já na reserva Kayapó, não têm como se sustentar ali. Felizmente, cruzados os limites da Terra Kayapó, pudemos apreciar a natureza preservada,como era há até poucos anos em toda a extensão do Xingu.
Fomos recebidos com festa nas duas aldeias. Os Kayapó, além de orgulhosos de sua cultura e da preservação de suas terras, estavam felizes com a presençados estudantes, que pagaram cada um 400 dólares pela visita. Além de desenvolverem uma atividade econômica verdadeiramente sustentável com avisita dos estudantes às suas terras, os índios também contribuíram para a economia do resto do Brasil, pois os norte-americanos gastaram pelo menosoutros três mil dólares cada em outras partes do país. E podem contribuir muito mais, se o potencial de aproveitamento turístico de suas terras fordesenvolvido.
Fora dos limites da Terra Indígena, apesar de tantos desmatamentos às margens do Xingu, se vi meia dúzia de vacas pastando nessas montanhas foimuito. Desmatamentos, é bom que se diga e repita, duplamente criminosos, pois, além de estarem à beira de rio, o que é proibido (e que rio!), foramfeitos na serra, o que também é ilegal. Então, por que, nos dias de hoje, em que se fala tanto em preservação, se desmata tanto justamente ali, bem nabeira daquele rio fabuloso? Não se faz nada para evitar esse crime porque, aos olhos dos governantes, não há motivo para aquelas montanhas seremflorestadas. Para eles, antes de molduras de um quadro maravilhoso para o deleite dos visitantes do Xingu, elas são as paredes dos reservatórios dasfuturas hidrelétricas.
Por: Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia,é professor da Universidade Federal do Pará.
30 setembro, 2008 - 15:51h
Ainda bastante impregnado pelo modelo paradigmático do antropocentrismo, que concebe o ser humano como o centro do universo, ente superior e dominador absoluto, ao redor do qual gravitam todos os demais seres em papel meramente subalterno, o homem, sistematicamente, explora a natureza e os animais considerando unicamente o seu próprio bem-estar (Milaré, 2004). Idéias e achados a respeito da vida mental e emocional dos animais, de sua capacidade de inteligência e de aprendizagem, da complexidade de sua comunicação, da existência de atos conscientes e até mesmo de uma consciência de si próprio, de sua possibilidade de criar e transmitir cultura, de manifestações de interação empática, têm levado os humanos a reconhecer a necessidade de mudar sua percepção e conduta em relação aos animais não-humanos (Flanagan, 1998). O conceito de senciência abrange e fortalece essas idéias. A senciência é a capacidade que um ser tem de sentir conscientemente algo, ou seja, de ter percepções (sensações e sentimentos) conscientes sobre o que lhe acontece e o que o rodeia (Smith, 2006; Moutinho, 2007; Singer, 2002, Martins Fontes). A ciência moderna já apresenta inúmeras evidências que muitos animais pensam e sentem e que seu comportamento é produto de processos inteligentes e conscientes. Desde o filósofo e cientista francês René Descartes (1596-1650), que difundiu a idéia que os animais eram meras "máquinas" insensíveis e irracionais, passamos por Jeremy Bentham (1748-1832), filósofo inglês que ressaltou que a questão não é se eles podem pensar ou falar, mas se eles podem sofrer (Bentham, 1948), e evoluímos através de Charles Darwin (1809-1882) com sua teoria sobre a semelhança entre a atividade mental dos animais e a dos humanos, cuja diferença seria apenas de grau e não de gênero. Reconhecer a senciência nos animais provoca o surgimento de reflexões éticas acerca do uso que damos a eles, acerca dos efeitos que a interferência humana provoca em seu habitat e acerca do grau de sofrimento que os atinge em virtude da forma como os tratamos. Isso implica que tomemos, desde já, algumas medidas no sentido de melhor conhecer e atender às suas necessidades básicas, assim como protegê-los de abusos e sofrimentos desnecessários. Nessa linha, dois ramos recentes do conhecimento humano - a bioética e a ciência do bem-estar animal - podem servir àqueles que trabalham e lidam com animais, em especial aos médicos veterinários, como ferramentas auxiliares para uma atuação moderna, pautada numa visão multidimensional, que considera tanto a ciência quanto a ética.
Bioética
O neologismo "Bioética" foi utilizado pela primeira vez pelo bioquímico norte-americano Van Rensselaer Potter (1911-2001), pesquisador em oncologia da Universidade de Wisconsin. O termo, lançado em seu artigo "Bioethics, the science of survival" (1970) e difundido no livro "Bioethics, bridge to the future" (1971), propunha um novo conhecimento que faria "uma ponte entre as ciências biológicas e os valores morais", com o objetivo de garantir a sobrevivência humana a partir de um ambiente saudável. Com a visão do oncologista, Potter fazia a relação entre a ação do câncer nos organismos vivos e as ações desordenadas do homem sobre a natureza, evidenciando o risco de deterioração progressiva e concluindo que, não modificando sua forma de interagir e atuar no meio ambiente, fatalmente o homem não poderia garantir seu futuro e sua sobrevivência por muito mais tempo (Mori, 1994; Paixão, 2001; Potter, 1999; Sauwen et al., 1997; Schramm, 1997).
A Bioética foi criada com a intenção de ressaltar a necessidade de uma nova forma de relação com o mundo vivo, humano e não-humano. Esse novo saber seria capaz de integrar os conhecimentos da biologia em seu sentido mais amplo, com o desenvolvimento dos valores humanos, a emergência dos problemas relativos ao meio ambiente e o relacionamento mais apropriado com os outros seres vivos, numa interação em prol de uma melhor qualidade de vida (Campbell, 2000; OPS, 1990; Paixão, 2001; Potter, 1999). A Bioética apresenta-se como um tema interdisciplinar na medida em que reúne esforços de profissionais ou pensadores de todos os campos do conhecimento humano, no intuito de examinar até que ponto uma ação, descoberta ou procedimento pode ou não ferir valores e atingir o homem em questões fundamentais (Campbell, 2000; Sauwen et al., 1997; Schramm, 1997).
Podemos entender a Bioética, portanto, como o conjunto de conceitos, argumentos e normas que valoram e legitimam eticamente os atos humanos que, de um modo real ou potencial, possam provocar efeitos irreversíveis sobre os fenômenos vitais. A Bioética, então, volta-se para o estudo dos dilemas relativos aos seres vivos sempre que a funcionalidade ou a manutenção de suas vidas se veja ameaçada (Campbell, 2000; Kottow, 1995; Mori, 1994; Potter, 1999). Schramm (2002) ressalta que a Bioética pode ser considerada como uma "ferramenta", conceitual e pragmática, usada na análise e resolução dos conflitos e dilemas morais que possam surgir no campo das ciências da vida e da saúde, com enfoque nas práticas humanas que podem ter efeitos irreversíveis sobre outros humanos, os seres vivos em geral e o ambiente natural.
Uma aplicação interessante da Bioética, que pode ser útil em seus conceitos para aqueles que lidam com animais, especialmente os médicos veterinários, é a teoria do australiano Peter Singer (1946), bioeticista e professor da Universidade de Princeton. Singer desenvolve o princípio da igual consideração de interesses: "os interesses de cada ser afetado por uma ação devem ser levados em conta e receber o mesmo peso que os interesses semelhantes de qualquer outro ser" (Singer, 2004). Com esse pressuposto moral básico, Singer defende uma forma de igualdade que inclui todos os seres, humanos e não-humanos. Como ele ressalta, não temos o direito de ignorar os interesses dos animais não-humanos, tratando-os sem qualquer consideração por seu sofrimento ou dor, simplesmente em função de atender a nossos próprios interesses ou por não serem membros da nossa espécie. A dor e o sofrimento são, em si mesmos, ruins e devem ser evitados ou minimizados, não importa a raça, o sexo ou a espécie do ser que sofre (Singer, 2002a). Sua argumentação para estender o princípio de igualdade para além de nossa própria espécie é simples: nossa preocupação com os outros não deve depender de quem são, como são ou das aptidões que possuem. Para Singer, é uma arbitrariedade defender a idéia de que só os seres humanos têm valor intrínseco e chama essa atitude preconceituosa de especismo, à semelhança do que acontece no racismo e no sexismo (Singer, 2002b; Singer, 2004).
Bem-estar Animal
Bem-estar Animal é uma ciência voltada para o conhecimento e a satisfação das necessidades básicas dos animais. Mais objetivamente, designa o grau em que as necessidades físicas, psicológicas, comportamentais, sociais e ambientais de um animal são satisfeitas. Além do conceito de necessidades, a expressão se relaciona com vários outros, entre eles, dor, sofrimento, emoções, ansiedade, estresse, medo, controle e saúde, dessa forma expressando tratar-se de conhecimento de natureza holística. Isso implica atenção não apenas para a saúde física dos animais, como também para sua saúde mental e comportamental, suas interações sociais e sua adaptação ao meio ambiente (Broom et al., 1993; Broom, 1999; Speeding, 2000; Universidade de Bristol/WSPA, 2004).
À semelhança da Bioética, a ciência do Bem-estar Animal também pode ser considerada como uma ferramenta, instrumentalizando aquele que a utiliza com um conjunto de conceitos e parâmetros objetivos que permitem a avaliação da qualidade de vida dos animais e o impacto de nossas ações sobre eles. Considerando que um estado pobre de bem-estar pode originar, entre outras conseqüências, redução da expectativa de vida, redução da habilidade para crescer e produzir, baixa ou ausente aptidão para a reprodução, imunossupressão, lesões corporais e doenças, alterações comportamentais, alteração do processo fisiológico normal e do desenvolvimento anatômico, todas indicativas de baixa qualidade de vida e de sofrimento animal, conhecer e aplicar a ciência do Bem-estar Animal é, modernamente, atributo necessário ao profissional da veterinária (Broom et al., 1993; Broom, 1999; Speeding, 2000; Universidade de Bristol/WSPA, 2004).
Recentemente, em novembro de 2006, a American Veterinary Medical Association's (AVMA) estabeleceu os "princípios do Bem-estar Animal" (AVMA, 2007), que servirão como um guia para avaliar políticas, resoluções e ações relativas aos animais no território americano. Os princípios, arrolados em oito assertivas, pressupõem que os médicos veterinários devem se esforçar, continuamente, para prover saúde e bem-estar aos animais, ressaltando que sua utilização deve ser responsável, fundamentada no conhecimento científico, na ética e nos valores da sociedade. Apontam nossas obrigações de lhes prover necessidades básicas como água, alimento, manejo adequado, cuidados com a saúde e um ambiente apropriado, em consideração à biologia e ao comportamento característicos da espécie, assim como também consideram os cuidados que devemos tomar para minimizar seu medo, dor, estresse e sofrimento. A AVMA destaca que a conservação e o manejo das populações animais deve ser humanitário, responsável e feito em bases científicas, e enfatizam que os animais, em todo o seu tempo de vida, devem ser tratados com respeito e dignidade e, quando necessário, terem uma morte sem sofrimento.
O papel do Médico Veterinário
Os médicos veterinários, executando tarefas e funções muitas vezes bem diferenciadas, podem aplicar os princípios desses dois saberes - a Bioética e o Bem-estar Animal - de múltiplas formas. Clínicos veterinários, por exemplo, que atendem a pequenos animais, lidam em sua rotina diária com inúmeros dilemas. A chegada de um animal de companhia em estado avançado de uma doença terminal leva à reflexão sobre a eutanásia. Qual é a melhor conduta - abreviar sua vida e seu sofrimento com um procedimento médico imediato ou deixar que sua vida termine naturalmente, apenas com o controle da dor e de outros sintomas, no conforto do seu lar e permitindo mais um tempo de convivência com as pessoas que o amam? Como ajudar o proprietário do animal em sua decisão e na lida com essa situação tão dolorosa? Como auxiliar o animal a vencer essa etapa de sua vida com o mínimo de sofrimento? A Bioética pode ajudar, e muito, nessa tomada de decisão e no enfrentamento dos conflitos inerentes a ela, e a ciência do Bem-estar Animal propicia informações sobre necessidades básicas, físicas e mentais, que vão colaborar para a melhoria da qualidade de vida do animal que sofre em seus momentos finais. E quanto à questão do recebimento de silvestres criados como animais de estimação? O que diz a ciência do Bem-estar Animal quanto ao impacto sobre sua saúde física e mental que a manutenção desses animais em cativeiro provoca? E a Bioética - é eticamente aceitável impedir-lhes uma existência natural e livre? Como deve proceder o médico veterinário diante desse dilema? E quanto aos animais que sobrevivem em circos e zoológicos, os utilizados em rodeios e vaquejadas, aqueles usados para a pesquisa científica e para o consumo? A ciência do Bem-estar Animal tem muitas informações a nos fornecer sobre as necessidades primordiais das diferentes espécies nas inúmeras situações em que podem ser encontradas, especialmente na interação com o homem, de modo a evitar-lhes sofrimento desnecessário e exploração abusiva. Mas, antes de mais nada, a Bioética, com seus métodos criteriosos de análise, nos permite fazer uma reflexão objetiva e fundamental sobre como percebemos e interagimos com os animais em nossa sociedade e sobre a forma como os tratamos e os utilizamos. É justo privar os animais de sua liberdade e da companhia de seus grupos sociais para nosso deleite? É aceitável o uso de animais em circos e rodeios? Até onde vão nossos limites e direitos na utilização de animais para uso científico e para produção? Quais são os limites da domesticação e da exploração de animais? Quanto aos procedimentos de controle animal e as intervenções zootécnicas, são apropriados do ponto do vista da ciência do Bem-estar Animal e da Bioética? A partir dessas reflexões, realizadas como uma meta para o alcance de uma interação harmoniosa e ética entre os diferentes elementos vivos que compõem nosso planeta, e com os ensinamentos da ciência do Bem-estar Animal a respeito do que é necessário para uma sobrevivência com melhor qualidade, nossa função como médicos veterinários ganhará em termos de eficiência, credibilidade, gratificação pessoal e humanização.
Considerações Finais
Se aceitarmos a teoria da "igual consideração de interesses" e que os animais são capazes de pensar e de sentir, se concordarmos com os fundamentos do bem-estar animal e reconhecermos nossas obrigações para com eles, estaremos caminhando pautados na utilização de princípios que vão nos permitir uma atuação além da tecnociência. Com o nível de conhecimento científico que temos hoje, nos defrontando com a senciência animal, e frente às demandas da sociedade por uma atuação mais humanitária e mais respeitosa para com os animais, a Bioética e a ciência do Bem-estar
Animal são instrumentos valiosos e, podemos dizer, imprescindíveis para o médico veterinário. Nada que se faça sem fundamentar-se em valores e em reflexões éticas pode ser considerado acabado, além do que é vazio de espírito. Uma consideração mais aprofundada do sentido e do valor da vida destrona a superioridade e a centralidade da espécie humana. A vida em si é o valor central, em todas as suas manifestações e em todos os aspectos a ela inerentes. É o respeito à vida, o biocentrismo, o referencial para as ações do homem, daí a Bioética e as preocupações com o bem-estar animal.
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Autora: Mariângela Freitas de Almeida e Souza
Médica Veterinária CRMV-RJ nº 5012
Psicóloga CRP-RJ nº 2826, MSc
Pós-graduada em Bem-Estar Animal por Cambridge E-Learning Institute –UK
Especialista em Ética Aplicada e Bioética pela Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz
E-mail: mariangelafas@uol.com.br
Fonte: Artigo publicado na Revista do Conselho Federal de Medicina Veterinária, ano 14, nº 43 – janeiro, fevereiro, março, abril / 2008, pág. 57-61.
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